sábado 21 de fevereiro

A Controvérsia Linguística do Recife

A polêmica linguística em torno do uso de “de” ou “do” ao se referir ao Recife ressurgiu recentemente, trazendo à tona uma discussão que, apesar de leve, reflete sobre a identidade cultural da cidade. Em produções como o filme “O Agente Secreto”, do renomado diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho, essa questão se torna ainda mais evidente. Personagens como Augusto (Roney Villela) e Teresa Victória (Isabél Zuaa) utilizam as expressões “em Recife” e “de Recife”, enquanto o roteiro preferencialmente opta pelo uso do artigo definido, referindo-se à cidade como “o Recife”, “no Recife” e “do Recife”.

Essa variação no uso do artigo não é apenas uma questão gramatical, mas uma reflexão sobre a forma como os próprios recifenses lidam com a sua identidade. Atualmente, não é raro ouvir muitos habitantes da cidade omitindo o artigo, algo que, nos anos 1970, seria considerado um deslize grave. O conterrâneo Francisco José, natural do Cariri, compartilha uma experiência que ressalta essa preocupação com a norma: “Muita gente estranha porque falamos ‘no Recife’, ‘do Recife’… Há 45 anos, após uma entrevista com o mestre Gilberto Freyre, ele me disse: ‘Você está cometendo um erro grave de português, ao falar de Recife, em Recife…’. Segundo Freyre, o nome da cidade deriva dos arrecifes, uma palavra masculina, o que justificaria o uso do artigo definido.

A Importância do Artigo Definido

Freyre defendia que, em regra, topônimos originados de acidentes geográficos devem ser precedidos pelo artigo, assim como se diz “no Rio”, “de Bahia” ou “em Amazonas”. Essa perspectiva está arraigada na cultura local e é compartilhada por muitos poetas e músicos da cena pernambucana, que naturalmente se referem à cidade como “no Recife”. A obra de artistas como Manuel Bandeira, Miró da Muribeca e Cida Pedrosa também reafirma essa norma em suas criações.

Ademais, o escritor Marcelino Freire, autor do livro “Rasif – Mar que arrebenta”, revela outra faceta dessa questão: Rasif, que é a origem árabe da palavra Recife, também reforça a conexão histórica e cultural com a cidade. Contudo, apesar de essa norma ser respeitada por muitos, há uma parcela significativa da população que opta por deixar o artigo de lado, pronunciando “de” ou “em Recife” sem qualquer constrangimento. Como muitos comentam, essa escolha não gera nenhuma calamidade e acaba sendo tratada com leveza.

A Perspectiva Acadêmica e Cultural

De acordo com o gramático paulista Napoleão Mendes de Almeida, o uso do artigo “o” antes de topônimos poderia ser considerado opcional. No entanto, para aqueles que seguem as tradições linguísticas mais rigorosas de Pernambuco, essa regra é uma verdadeira lei. O fato de que apresentadores de eventos nacionais, como o Oscar, possam errar ao se referir ao filme “O Agente Secreto” como um filme de Recife é motivo de preocupação para os puristas. O Recife mais antigo, com suas tradições, não perdoaria tal deslize.

Em suma, essa discussão sobre o uso do artigo em relação a Recife não é apenas uma questão de gramática, mas um reflexo da identidade cultural e das raízes históricas da cidade. O debate, mesmo que leve, nos convida a refletir sobre como a linguagem molda a forma como nos vemos e nos relacionamos com o nosso espaço. Portanto, ao falarmos sobre Recife, que possamos sempre lembrar da riqueza que essa cidade carrega, não apenas em suas paisagens, mas também em sua linguagem e cultura.

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