quarta-feira 21 de janeiro

A Banalização do Mal e o Papel da Teologia em Tempos de Sofrimento

O padre João Gonçalves prepara-se para lançar, na próxima quinta-feira, dia 15 de janeiro, às 18h30, no Museu de Arte Sacra, a obra intitulada “De profundis: Pensar e acreditar depois de Auschwitz”. Em entrevista ao Jornal da Madeira, o autor revela que sua motivação para explorar este tema não começou com uma análise filosófica, mas sim a partir de uma poderosa reflexão extraída de um verso popular, do poeta Leandro Gomes de Barros. “A força de uma pergunta poética que me impactou foi: ‘Quem foi temperar o choro e acabou salgando o pranto?'”, explica Gonçalves, enfatizando a necessidade de abordar o sofrimento humano.

O autor ressalta que Auschwitz vai além de um local geográfico. Para ele, o campo de concentração simboliza as vítimas de diversas formas de tirania, que ainda são uma realidade nos dias de hoje. “Auschwitz não é apenas um campo, mas um símbolo das opressões que persistem em pleno século XXI”, declara. Assim, o conceito de Auschwitz se expande, tornando-se um ‘campo semântico’ que se relaciona com a dor e a injustiça atuais.

Gonçalves explica que a obra não é voltada apenas para aqueles que têm uma crença religiosa. Para ele, a pergunta mais profunda que todos enfrentam é: “Apesar do sofrimento, da dor e da morte, a vida vale a pena ser vivida?” Esta é a questão central da obra, que busca proporcionar uma reflexão aberta, sem se restringir a um discurso puramente religioso, mas se direcionando para uma análise existencial.

Reflexões sobre Guerra e Violência

Ao traçar um paralelo entre os horrores do passado e a realidade contemporânea, o padre Gonçalves identifica um padrão comum: a lógica de legitimação da violência. Ele afirma que, embora Auschwitz represente uma época distinta, compartilha uma característica fundamental com os totalitarismos atuais: a justificativa da tirania. “Não existem boas razões para a violência. A normalização da guerra é inaceitável”, afirma. Ele critica os discursos que tentam justificar invasões, como em Gaza e na Ucrânia, alertando para o risco de nos tornarmos insensíveis ao sofrimento alheio.

O autor também faz uma crítica ao consumo diário de notícias sobre tragédias, que podem anestesiar a sociedade. Gonçalves aponta que o sofrimento do próximo nos é apresentado através das mídias, e isso pode levar a uma perigosa banalização do mal. Ele exorta: “Não podemos banalizar o mal. O mal é sempre mal”.

O Silêncio de Deus e a Nova Teologia

Outro tema abordado na obra é o conceito do ‘silêncio de Deus’, que permeia a reflexão sobre Auschwitz. O padre Gonçalves reconhece a complexidade desse silêncio, que pode ser interpretado de diversas formas: como presença na dor ou como afastamento. Ele coloca em questão as narrativas teológicas tradicionais que apresentam um Deus impassível, e destaca a importância de entender a experiência daqueles que sofreram com a dor e a oração nos campos de concentração. “Se hoje podemos rezar, é porque também se rezou naquelas condições extremas”, reflete.

O autor menciona Etty Hillesum, cuja frase ressoa na sua análise: “Vou ajudar-te, meu Deus, a não te abandonares”. Essa perspectiva nos leva a uma compreensão mais profunda de Deus, não como uma entidade distante, mas como um Deus ferido, que se identifica com o sofrimento humano.

A Realidade Jurídica e Moral

A discussão se expandiu para o âmbito do direito e da política, questionando como um ato tão maligno como o Holocausto pôde ocorrer em uma sociedade tão culta e estruturada juridicamente. O padre Gonçalves lembra que o governo que perpetrou tais atrocidades foi democraticamente eleito. Ele traz à tona o famoso argumento dos acusados em Nuremberga: “Eu apenas seguia ordens”. Apesar de reconhecer a validade desse argumento, ele ressalta que a lei que seguiam era, de fato, má.

Para o sacerdote, essa reflexão serve como um alerta para a atualidade: a necessidade de um pensamento crítico em relação à lei e à ordem estabelecida, assegurando que não firam a dignidade humana. Ele adverte sobre a falta de limites que pode surgir em democracias e discute como o medo e a construção de um inimigo podem capturar a sociedade em narrativas de ameaça.

A Transformação Pessoal e O Papel da Teologia

Ao encerrar a entrevista, o padre Gonçalves reflete sobre o impacto pessoal que escrever este livro teve sobre ele. Para ele, ao explorar um tema tão profundo e doloroso, ninguém sai da mesma forma que entrou. Ele destaca que a verdadeira relevância de um livro não deve ser medida apenas em termos de vendas, mas pela transformação interna do autor.

Em sua análise final, o padre João Gonçalves propõe uma abordagem teológica pautada na liberdade e na busca pela dignidade humana. Ele reforça que a verdadeira teologia deve ser uma teologia de libertação, que permita que as vozes humanas sejam ouvidas, e que, ao fazer isso, se reconhece a presença de Deus na humanidade. “Se Deus nos fez livres, quem sou eu para limitar a liberdade do outro?”, conclui.

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