Método Inovador para Produção de Colágeno
Pesquisadores do Laboratório de Zootecnia Celular da Universidade Federal do Paraná (UFPR) estão trabalhando em um projeto inovador que visa a produção de colágeno de jumento através de fermentação de precisão. Essa tecnologia revolucionária, que dispensa o abate dos animais, está prevista para ser concluída ainda neste ano. O projeto já avançou nas etapas iniciais em laboratório e agora se prepara para uma fase crucial, que visa comprovar a viabilidade técnica do processo até o final de 2026.
A próxima etapa envolve o escalonamento inicial da tecnologia, com testes em biorreatores de 10 e 50 litros. Para que essa fase aconteça, a equipe estima a necessidade de um investimento de aproximadamente US$ 2 milhões, que será utilizado na construção de uma infraestrutura adequada para viabilizar a produção em escala do colágeno derivado do jumento.
Entendendo o Colágeno de Jumento
A técnica de fermentação de precisão utiliza micro-organismos geneticamente modificados para gerar proteínas específicas de origem animal. No caso da UFPR, a proteína que está sendo alvo do desenvolvimento é o colágeno do jumento, que é amplamente utilizado na indústria chinesa para a produção do ejiao. Essa gelatina é extraída da pele do animal e é um componente essencial na medicina tradicional. O mercado global de ejiao está avaliado em cerca de US$ 1,9 bilhão e projeta-se que alcance US$ 3,8 bilhões até 2032, com uma taxa de crescimento anual média de 9,1%.
No segundo ano do projeto, os cientistas planejam inserir o DNA que codifica a produção de colágeno em um micro-organismo, transformando-o em uma biofábrica. Desde essa fase, a equipe estará apta a avançar para os testes em biorreatores, um passo importante para a concretização da pesquisa.
“Conseguimos avançar nas etapas mais complexas do projeto, especialmente as de bancada, onde a inovação reside. Agora, estamos prontos para inserir o DNA do colágeno em uma levedura, que funcionará como uma biofábrica, similar ao processo de produção de cerveja”, afirmou Carla Molento, PhD pela Universidade McGill, no Canadá, e coordenadora do laboratório.
Financiamento e Parcerias Estratégicas
O projeto conta com o financiamento do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), através do Departamento de Proteção, Defesa e Direitos Animais (DPDA), e com o apoio da Fundação Araucária, além da Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (SETI) do Paraná. Uma parceria importante também foi estabelecida com a Universidade de Wageningen, na Holanda, reconhecida mundialmente em biotecnologia de proteínas alternativas.
“Pretendemos comparar o DNA do jumento brasileiro com sequências internacionais para assegurar uma descrição precisa do produto, o que é essencial para futuras aplicações comerciais”, explicou a especialista. A expectativa é apresentar, até dezembro de 2026, a prova de conceito, que consistirá na produção de miligramas de colágeno de jumento obtido integralmente por fermentação de precisão.
Desafios para o Avanço do Projeto
Embora os resultados iniciais tenham sido promissores, a equipe enfrenta desafios significativos em termos de financiamento para avançar além da fase de conceito. Sem os US$ 2 milhões necessários, a pesquisa poderá continuar restrita ao ambiente laboratorial, limitando a validação em condições industriais.
“Atualmente, estamos trabalhando com quantidades pequenas. Para avançar para uma aplicação industrial, é crucial instalar biorreatores maiores e testar a produção em escala piloto”, destacou Molento. A pesquisadora ressaltou que os recursos podem ser obtidos de fontes públicas ou privadas, incluindo empresas interessadas e organizações nacionais e internacionais.
Impacto Ambiental e Preservação da Espécie
Além do impacto científico, essa tecnologia representa uma alternativa econômica e ambientalmente mais eficiente ao modelo atual, que depende do abate de jumentos. Se produzida em escala, a mesma técnica poderá gerar outros produtos de origem animal sem a necessidade de criação e abate, diminuindo assim o impacto ambiental.
“Do ponto de vista produtivo, é muito mais eficiente investir em fermentação de precisão do que em fazendas de jumentos. Em um galpão, com alguns biorreatores, podemos produzir uma quantidade muito maior de proteína, utilizando menos insumos e sem abate”, explicou a pesquisadora.
Outro diferencial é a pureza elevada do colágeno produzido em laboratório, o que facilita sua comercialização no modelo B2B. “A estratégia mais viável é vender o colágeno purificado para empresas que já fabricam produtos finais, seja na China ou em outros mercados”, completou Carla Molento, que considera o colágeno de jumento uma porta de entrada para a consolidação das proteínas alternativas.
Preservação dos Jumentos no Brasil
Além de seus benefícios econômicos, essa tecnologia pode contribuir significativamente para a preservação dos jumentos, que enfrentam um sério risco de extinção. Dados da FAO, IBGE e Agrostat mostram que a população desses animais no Brasil diminuiu 94% entre 1996 e 2024.
“De cada 100 jumentos que existiam há 30 anos, hoje restam apenas seis”, afirmou Patricia Tatemoto, PhD em Ciências pela USP e coordenadora de uma organização dedicada à proteção da espécie. A prática de abate ocorre de forma extrativista, não beneficia a economia local e está concentrada em apenas dois abatedouros no interior da Bahia, caracterizando uma atividade que contraria evidências técnicas e científicas já consolidadas no país.
