sábado 17 de janeiro

A Subutilização das Plantas de Cobertura na Agricultura

Apesar dos avanços no conhecimento científico e dos resultados positivos já observados em várias regiões do Brasil, as plantas de cobertura continuam a ser subutilizadas na agricultura nacional. Essa questão é analisada pelo pesquisador Fernando Mendes Lamas, da Embrapa Agropecuária Oeste, que destaca um dos principais entraves da produção agrícola no país: a baixa diversidade dos sistemas produtivos.

De acordo com Lamas, a predominância de culturas como soja, milho e algodão, especialmente na região centro-oeste, impacta diretamente na estabilidade da produção e no aumento dos custos envolvidos. “O maior desafio da agricultura brasileira atualmente está na pouca diversidade dos sistemas de produção. A escassez de diversidade nos agroecossistemas é uma das causas principais da instabilidade na produção e do aumento nos custos”, afirma.

A Diversificação como Solução Estrutural

Pesquisas realizadas pela Embrapa, junto a outras instituições, reforçam que a diversificação, promovida pelo uso de plantas de cobertura — também conhecidas como plantas de serviço —, é fundamental para a sustentabilidade agrícola. No norte do Paraná, por exemplo, estudos demonstraram ganhos econômicos significativos em sistemas mais diversificados.

Apesar desse conhecimento, a adoção das plantas de cobertura ainda está aquém do que poderia ser aproveitado. “Embora haja um crescimento recente no uso dessas plantas, ele ainda é bastante limitado em comparação ao seu potencial para melhorar o ambiente de produção, resultando em maior produtividade e estabilidade, principalmente em anos com restrições climáticas. Aumentar a produção é importante, mas garantir sua estabilidade é fundamental”, alerta Lamas.

Conhecimento em Abundância, Aplicação em Baixa

O debate sobre plantas de cobertura é vasto no meio científico. Entre 2020 e 2025, foram publicados 2.364 artigos no Brasil sobre esse tema, segundo levantamento do Periódico Capes. “A questão é: temos conhecimento suficiente para integrar as plantas de cobertura aos sistemas de produção de grãos, fibras e energia em diferentes biomas brasileiros? A resposta é sim”, afirma o pesquisador.

Os benefícios das plantas de cobertura são amplamente reconhecidos e bem documentados. Elas protegem o solo contra a erosão, mantêm a umidade, reduzem a temperatura do solo, aumentam a matéria orgânica, melhoram a infiltração de água, estimulam a atividade biológica do solo, favorecem a ciclagem de nutrientes, promovem a fixação biológica de nitrogênio e auxiliam no controle de plantas daninhas e nematoides. “As plantas de cobertura são essenciais para sistemas produtivos que visam uma agricultura conservacionista”, enfatiza.

Compactação do Solo e Práticas de Manejo

O artigo de Lamas também destaca a questão da compactação do solo, um problema recorrente na agricultura moderna. O pesquisador observa que, em muitos casos, a compactação está ligada ao sistema de manejo utilizado e não deve ser tratada apenas com soluções mecânicas. “A descompactação do solo não deve ser baseada somente em práticas mecânicas; é vital incorporar práticas vegetativas, como as plantas de cobertura”, sugere.

Em sistemas bem manejados, o uso contínuo dessas plantas ajuda a prevenir ou mesmo resolver o problema da compactação ao longo do tempo. Além disso, as espécies de cobertura contribuem para o manejo de plantas daninhas resistentes, como a buva, e melhoram a fertilidade do solo. Leguminosas como crotalária e guandu são eficazes na fixação do nitrogênio atmosférico, enquanto forrageiras do gênero Urochloa podem ser integradas à pecuária, fortalecendo os sistemas de integração lavoura-pecuária.

Desafios na Adoção das Plantas de Cobertura

Por fim, Lamas aponta duas razões principais para a baixa adoção das plantas de cobertura na agricultura brasileira. “Sabemos que temos o conhecimento necessário para usufruir amplamente das plantas de cobertura. Então, quais seriam os motivos para o seu uso ainda ser tão restrito?”. A primeira razão é que muitos dos efeitos benéficos das plantas de cobertura são percebidos no médio prazo, exigindo uma visão de sistema e planejamento que vai além de uma safra. A segunda razão está atrelada à lógica de mercado: “Isso acontece, em parte, porque as plantas de cobertura não fazem parte de grandes pacotes que incluem suas sementes e por não gerarem produtos que possam ser comercializados”, esclarece.

Assim, o desafio não reside na falta de ciência, mas na dificuldade de transformar esse conhecimento em práticas consolidadas nos sistemas de produção. Em um cenário marcado por mudanças climáticas, aumento dos custos e a necessidade de maior resiliência, as plantas de cobertura surgem como uma ferramenta estratégica ainda pouco explorada pela agricultura brasileira.

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