terça-feira 27 de janeiro

A Polarização Política na Região Metropolitana do Recife

A Região Metropolitana do Recife (RMR) se apresenta como um verdadeiro tabuleiro político, marcado por um equilíbrio quase cirúrgico entre as forças de direita e esquerda. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Núcleo de Inteligência de Mercado da UniFafire, 23,81% dos entrevistados se declaram de direita, enquanto 23,68% se posicionam à esquerda. Essa simetria política revela, no entanto, um custo social significativo: quase 40% dos eleitores relatam ter enfrentado discriminação em função de suas convicções políticas.

Esse estudo, que ouviu 801 moradores entre novembro e dezembro de 2025, destaca a RMR como um espaço que caminha na contramão do cenário nacional. Enquanto o Brasil observa um avanço da direita, a região parece estar presa a um “vácuo de moderação”, com uma crescente rejeição a rótulos centristas e um aumento da intolerância nas ruas.

A Desaparição do Centro no Recife

Diferente do panorama nacional, onde o centro ainda conta com alguma relevância, no Recife essa força é quase inexistente. A centro-direita, por exemplo, representa apenas 1,88% dos entrevistados. O eleitorado polarizado guarda, entretanto, uma peculiaridade: 31,08% dos entrevistados não se identificam com nenhum rótulo político, preferindo uma postura pragmática.

Felipe Ferreira Lima, cientista político e professor na UniFafire, ressalta que essa tendência indica uma região “que, apesar de altamente polarizada, apresenta um percentual considerável de eleitores que não utilizam critérios partidários ou ideológicos estritos ao escolher seus candidatos, demonstrando resistência às classificações convencionais”. Isso transforma a RMR em um campo de batalha político imprevisível para as eleições de 2026.

Os Desafios da Memória Legislativa

Embora a identidade ideológica se mostre forte, a pesquisa revela uma preocupante falta de memória coletiva em relação ao Legislativo local. Enquanto 88,21% dos entrevistados recordam em quem votaram para Presidente, 64,32% não conseguem lembrar o nome do deputado estadual que escolheram. A situação é ainda mais crítica quando se trata de deputados federais, onde o esquecimento atinge 69,83%, e 64,17% não se recordam do senador que votaram.

“O eleitor participa do processo eleitoral, mas se desconecta do acompanhamento dos mandatos. Sem um histórico do voto, enfraquece-se a fiscalização e a responsabilização dos políticos eleitos”, analisa Lima. Em contrapartida, a lembrança sobre o Executivo é mais acentuada, com 67,53% recordando em quem votaram para governador, o que reflete um debate presidencial que ainda ressoa no cotidiano da população.

Fidelidade e Volatilidade nas Urnas

A pesquisa também se voltou para o futuro, investigando a fidelidade do eleitorado. Aqueles que recordam seu voto para deputado demonstram maior lealdade, com mais de 70% afirmando que repetiriam a escolha. Contudo, a situação é diferente quando se trata de Governo do Estado, onde apenas 54,42% votariam novamente na mesma candidata, enquanto 45,58% consideram a possibilidade de mudar seu voto, indicando um eleitorado mais crítico e volátil em relação à administração estadual.

João Paulo Nogueira, coordenador da pesquisa, destaca a robustez metodológica do estudo, que contou com 95% de nível de confiança. “A sondagem conseguiu reproduzir com precisão o comportamento real do eleitorado, o que garante segurança para a interpretação dos dados obtidos”, afirma.

A Intolerância e seus Alertas

Outro aspecto alarmante revelado pela pesquisa é a erosão da convivência social. O levantamento mostra que 39,83% da população já se sentiu vítima de preconceito devido às suas opiniões, acendendo um sinal de alerta sobre os desafios que o futuro democrático enfrentará na RMR. Essa crescente intolerância pode representar um risco significativo para a unidade e a paz social na região.

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