sexta-feira 6 de fevereiro

Uma Conquista Internacional

A Poltrona Ariranha, inspirada na rica cultura da aldeia Kaupüna, localizada no território do Alto Xingu, a 571 km de Cuiabá, foi a grande vencedora na categoria de Melhor Design de Produto no Créateurs Design Awards 2026. A premiação, que ocorreu em janeiro em Paris, França, é reconhecida mundialmente por celebrar as criações mais inovadoras do design contemporâneo.

O projeto é fruto da colaboração entre a designer Maria Fernanda Paes de Barros, de 56 anos, e o indígena Kawakanamu Mehinaku, de 64 anos, responsável pela produção da máscara que integra a peça. Também participaram os artesãos José Augusto Rodrigues e David Garcia, que se encarregaram do encaixe do encosto da cadeira.

O Encontro com a Cultura Indígena

Em entrevista ao G1, Maria Fernanda compartilhou sua trajetória – antes de se dedicar ao design de mobiliário, ela atuava como designer de interiores. Foi em 2014 que decidiu fundar seu próprio estúdio, focando em projetos que valorizam as culturas indígenas. “Minha intenção sempre foi dar visibilidade ao artesanato brasileiro e às suas tradições. Todo ano, eu visitava uma comunidade e desenvolvia projetos e técnicas locais”, explicou a designer.

A conexão de Maria com a aldeia Kaupüna começou em 2019, por meio do amigo Kulikyrda Mehinaku, filho do cacique Yahati Mehinaku. Desde então, passou a desenvolver iniciativas colaborativas voltadas para a produção local. Durante uma de suas visitas, se deparou com a intrigante máscara feita ali e decidiu incorporá-la em um de seus projetos, o que culminou na sua participação no concurso.

A Máscara e seu Significado Cultural

“Eu me encantei pela máscara e aprendi sobre seu processo de confecção, trazendo esse aprendizado para uma das minhas criações que recebeu indicação no Creators Design Awards”, contou Maria. Graças a essa colaboração, ela não apenas ganhou o prêmio, mas também destacou a cultura indígena em um cenário internacional.

Para a designer, essa vitória representa uma oportunidade de levar a cultura indígena para além das fronteiras do Brasil, enfatizando a importância de preservar os saberes ancestrais. “Fiquei muito feliz, porque é uma forma de mostrar e respeitar a cultura indígena, aumentando a valorização e o respeito”.

O Processo de Criação da Poltrona Ariranha

A estrutura da Poltrona Ariranha foi elaborada em madeira freijó, produzida por luthiers do interior de São Paulo. Em contraponto, a máscara que compõe o encosto da cadeira foi confeccionada na aldeia Kaupüna. O resultado final é uma fusão de técnicas tradicionais indígenas com o design contemporâneo, refletindo a riqueza cultural de Mato Grosso.

Kulikyrda Mehinaku, em conversa com o G1, explicou que a máscara Ariranha está profundamente ligada a rituais de cura entre os povos tradicionais. Segundo ele, quando um membro da comunidade adoece, um pagé conduz uma cerimônia para identificar o espírito responsável pela enfermidade. No caso da Ariranha, considerada um espírito coletivo, a família do doente oferece alimentos como mingau e sopa de pimenta durante o ritual de cura.

Uma Máscara com Propósito

Após a recuperação, a máscara é confeccionada em madeira, cipó e barbante, sendo pintada e adornada com elementos tradicionais, como dentes de piranha. “Essa máscara é então apresentada em um novo ritual, onde o espírito deixa de causar mal e assume o papel de protetor”, ressaltou Kulikyrda.

No entanto, a máscara utilizada na Poltrona Ariranha não foi associada a nenhum ritual de doença; foi criada exclusivamente para o design, refletindo a beleza e a tradição da cultura indígena. Maria Fernanda continua sua missão de promover e valorizar a arte indígena por meio de seus projetos inovadores, reunindo tradição e modernidade.

Em suas visitas à aldeia Kaupüna, Maria Fernanda não apenas cria, mas também aprende e se inspira, estabelecendo um ciclo de troca cultural que enriquece tanto sua arte quanto a comunidade.

Exit mobile version