Investimento Necessário para a Volta dos Trilhos
Um estudo recente, financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) em conjunto com a estatal Infra SA, vinculado ao Ministério dos Transportes, revelou que a reativação das ferrovias abandonadas no Brasil demandará um investimento de cerca de R$ 75 bilhões. Essa quantia é essencial para a reconstrução e operação regular de 7.412 quilômetros de trilhos, que se encontram em 37 trechos pelo país.
O relatório, que teve acesso exclusivo da Folha, analisa um total de 9.845 quilômetros de ferrovias que estão subutilizadas ou completamente abandonadas. Das malhas estudadas, apenas 2.433 quilômetros foram considerados inviáveis para reativação, mesmo com a aplicação de recursos públicos.
Viabilidade de Reativação das Estradas de Ferro
Segundo o estudo, nenhum dos trechos analisados poderia ser reativado unicamente com investimento privado. O levantamento revela ainda que, dos 7.412 quilômetros que poderiam ser recuperados, cerca de 1.310 km têm menor dependência de subsídios, precisando apenas de um aporte inicial para reiniciar a infraestrutura.
No entanto, a maior parte da rede viável, aproximadamente 6.102 km, necessitará de subsídios operacionais contínuos para garantir a sustentabilidade do serviço. O foco do transporte nos trechos reabilitados é majoritariamente de cargas, com cerca de 5.900 km destinados a esse fim. Além disso, cerca de 1.200 km podem operar em um modelo misto, atendendo tanto a carga quanto a passageiros.
Malhas Regionais e seus Desafios
A análise considera três malhas ferroviárias: a Malha Nordeste, com 2.984 km, passa por estados como Pernambuco e Ceará, ligando áreas metropolitanas a regiões produtoras. Um dos trechos viáveis é o Tronco Recife, que conecta a capital pernambucana ao agreste.
A Malha Centro-Leste, com 3.577 km, abrange diversos estados, incluindo Bahia e Rio de Janeiro, com destaque para o trecho entre Visconde de Itaboraí e Vitória. Por fim, a Malha Sul apresenta 3.284 km, conectando estados como Paraná e Rio Grande do Sul, com trechos promissores que ligam Ourinhos a Cianorte e Cruz Alta a Passo Fundo.
Expertise para o Retorno do Transporte Ferroviário
De acordo com especialistas, a reativação desse sistema ferroviário exige mais do que apenas reconstrução. Isadora Cohen, da ICO Consultoria, enfatiza que a demanda pelo transporte precisa justificar o investimento, e se a política pública for de revitalização, subsídios serão indispensáveis para mitigar os gastos.
Ronei Glanzmann, CEO do MoveInfra, destaca a natureza capital intensiva do setor ferroviário. Ele menciona o novo modelo proposto pelo governo, chamado Viability Gap Funding, que visa cobrir a diferença entre a arrecadação e os custos dos projetos, facilitando a operação das ferrovias mesmo em situações de baixa rentabilidade.
Um exemplo dessa iniciativa é a concessão da Ferrovia do Sudeste, que será aplicada na EF 118, uma ferrovia vital de 575 km que irá conectar portos e melhorar a logística de transporte entre o Rio de Janeiro e o Espírito Santo. O levantamento dessas ferrovias abandonadas não apenas abre uma nova perspectiva de investimento público, mas também revê a importância de um sistema ferroviário eficiente no Brasil.

