Três Décadas de Rec-Beat
Fundado durante a efervescência do movimento manguebeat, na década de 1990, o festival Rec-Beat celebrará sua 30ª edição em 2026, consolidando-se como um dos mais importantes eventos musicais do Brasil. O festival serve como uma plataforma de intercâmbio cultural e diversidade musical, refletindo a rica tapeçaria da produção artística contemporânea.
Em uma entrevista exclusiva à Folha de Pernambuco, Antonio Gutierrez, conhecido como Gutie, idealizador e curador do Rec-Beat, faz um retrospecto das três décadas do festival, que revelou uma infinidade de talentos e trouxe sons do Brasil e do exterior para o Carnaval recifense. Embora tenha tido uma edição inicial em São Paulo em 1994, o festival ganhou vida oficialmente em 1996 no Centro Cultural Luiz Freire, em Olinda. Desde então, passou pela Rua da Moeda até se estabelecer no Cais da Alfândega, no coração do Bairro do Recife, onde continua a encantar o público.
A Chegada de Gutie ao Recife
A trajetória de Gutie no Recife começou em 1989, quando ele chegou à cidade como correspondente da Gazeta Mercantil. Sua visão aguçada sobre a cena musical local o transformou em um articulador ativo da vibrante produção musical dos anos 90, especialmente durante o auge do movimento Manguebeat, que catapultou Pernambuco ao reconhecimento nacional e internacional com artistas como Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S/A.
O Rec-Beat também se integrou a uma rede global de festivais de música e, para este ano especial, anunciou o lançamento de um novo projeto chamado Moritz, que será dedicado exclusivamente à música eletrônica, ampliando ainda mais seu horizonte cultural.
Um Legado de Diversidade e Pluralidade
“É uma coisa realmente muito gratificante”, reflete Gutie sobre o legado do festival. “A cada ano, focamos na construção de uma identidade própria, com um conceito definido que se consolidou ao longo do tempo.” Ele ressalta que, apesar das resistências iniciais, a proposta de diversidade e pluralidade do Rec-Beat foi revolucionária, transformando a paisagem do Carnaval. “Hoje, há uma ‘Rec-beatização’ no Carnaval, com muitos palcos que emulam nossa fórmula.”
Além de criar um espaço para manifestações culturais diversas, o festival também promove uma reflexão sobre a essência do Carnaval, deslocando a celebração para dentro do palco, enquanto mantém suas raízes na rua.
Expandindo Horizontes Musicais
O Rec-Beat sempre teve um olhar atento para além dos limites pernambucanos. Gutie compartilha que, ao longo dos anos, o festival começou a incluir artistas de outras regiões do Brasil, como Bahia e Pará, além de trazer influências da América Latina e da África, promovendo um olhar periférico na programação.
“Fui pioneiro em trazer o brega funk para o palco do Rec-Beat”, comenta Gutie, ressaltando a importância de incluir sons que antes eram marginalizados. Ele menciona a riqueza cultural do Norte e Nordeste, que sempre teve um espaço garantido no festival, assim como a busca por novas sonoridades na América Latina e além.
Uma Vitrine para Novos Talentos
Gutie também destaca o impacto que o festival teve na carreira de diversos artistas, como bandas da Colômbia e do Chile que, após se apresentarem no Rec-Beat, se tornaram grandes nomes em seus países. “A primeira vez que fui a um evento na Argentina, surgiu uma rede de contatos que se expandiu internacionalmente”, comenta.
Atualmente, Gutie faz parte de um comitê internacional artístico, participando de festivais e feiras em vários países. Essa articulação global não apenas enriquece o Rec-Beat, mas também contribui para um intercâmbio cultural vibrante e dinâmico.
Ao olhar para o futuro, o legado do Rec-Beat é inegável. O festival não só transformou o cenário musical do Carnaval, mas também se tornou um símbolo de resistência e diversidade, provando que música é uma celebração que deve ser inclusiva e plural.
