quinta-feira 21 de maio

Ecossistema de inovação do Recife mostra força, mas sofre com falta de capital

O Recife vem ganhando destaque nacional como um dos ecossistemas de inovação mais eficientes para o crescimento de startups. No entanto, um entrave importante persiste: a escassez de capital para financiar empresas em estágio inicial. Essa constatação faz parte do relatório inédito “Avaliação do Ecossistema de Startups do Recife”, desenvolvido pelo Sebrae/PE em parceria com a Startup Genome, referência mundial na análise de ambientes de inovação.

Investimentos iniciais abaixo da média em comparação a outros polos

Entre 2021 e 2024, as rodadas seed — primeira fase de captação de recursos — das startups recifenses tiveram uma mediana de investimento de US$ 191 mil. Esse valor é inferior ao registrado em polos semelhantes, como Uberlândia (US$ 309 mil), Goiânia (US$ 240 mil) e Florianópolis (US$ 200 mil). O uso da mediana evita distorções causadas por aportes excepcionais, refletindo com mais precisão o volume típico de investimentos.

Apesar do menor volume captado, as startups do Recife têm mostrado capacidade consistente de amadurecimento. O relatório aponta que 24% das empresas locais que recebem investimentos iniciais conseguem avançar para rodadas Série A, voltadas para expansão e consolidação dos Negócios. Esse índice posiciona Recife logo atrás de Uberlândia entre ecossistemas brasileiros de porte semelhante.

Qualidade técnica e experiência marcam o ecossistema recifense

Segundo Naira Bonifácio, diretora da Startup Genome para a América Latina, o problema não está na qualidade das startups do Recife, mas na limitação da oferta de capital. Ela destaca que o mercado ainda não explorou totalmente o potencial de investimento nos estágios iniciais, caracterizados por poucas rodadas e menor volume de recursos.

“Existe um gargalo de oportunidade nos investimentos iniciais, com poucas rodadas de captação e um volume menor de capital seed, mas isso não significa falta de qualidade. As startups locais têm fundadores extremamente técnicos e com background de negócios. Recife é um local para se tracionar startups”, afirma.

O levantamento reforça essa visão: 92% das startups recifenses contam com pelo menos um fundador com experiência técnica e estratégica, e 74% têm sócios com formação em negócios. Além disso, 52% dos empreendedores já haviam criado outros negócios, o que contribui para a maturidade do ecossistema.

Recife lidera formação tecnológica e capital humano qualificado

Outro diferencial do Recife está no capital humano. De acordo com dados do Censo da Educação Superior, a capital pernambucana lidera o ranking nacional de estudantes de Tecnologia da Informação por habitante, com 717,8 alunos para cada 100 mil habitantes — cerca de 47% acima de Brasília, segunda colocada. Esse pool de talentos é sustentado por instituições como a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Cesar School e iniciativas do Porto Digital, como o Embarque Digital.

Desafios para maturação do ecossistema local

Apesar dos avanços, o Recife ainda está na fase de “ativação inicial” no ciclo de maturidade dos ecossistemas de startups, segundo a Startup Genome. Essa etapa é caracterizada por polos com menos de mil startups e ausência de grandes operações de mercado, conhecidas como exits — vendas, abertura de capital ou aportes significativos que geram retorno substancial a investidores e fundadores.

Atualmente, estima-se que a capital pernambucana reúna entre 600 e 700 startups. Entre 2020 e 2024, não foram registradas operações superiores a US$ 100 milhões na cidade. Em comparação, São Paulo abriga cerca de 2 mil startups ativas, impulsionadas por US$ 841 milhões em investimentos early-stage e US$ 1,4 bilhão em exits.

Os pesquisadores alertam que o número menor de startups não indica fragilidade. Pelo contrário, o Recife apresenta características essenciais para um ecossistema competitivo, como formação robusta de talentos técnicos, forte conexão entre empreendedores, capacidade dos fundadores e bom desempenho das startups que captam recursos.

O caminho para ganhar escala e atrair investimentos

O maior desafio do Recife é ampliar a escala do ecossistema. Isso significa aumentar o número de startups, expandir o acesso ao capital de risco, atrair investidores privados e estimular que as empresas locais cresçam no mercado global. Essa etapa é crucial para que o polo evolua para estágios mais maduros, onde surgem startups bilionárias, grandes aquisições e maior inserção internacional.

Avançar nessa direção pode transformar o potencial inovador do Recife em resultados concretos para a economia local, gerando mais empregos, renda e dinamismo empresarial na região.

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