terça-feira 21 de abril

A Euforia do Cinema Nordestino

Recife se transforma em um destino turístico vibrante por conta do sucesso de ‘O Agente Secreto’, que está concorrendo a diversos prêmios Oscar. A cidade, que serve de cenário para a obra, vive um momento de euforia, com passeios turísticos pelos locais de filmagem, aumento nas vendas de camisetas inspiradas no protagonista e um crescimento significativo no número de visitantes em prédios históricos.

Ambientado no ano de 1977, durante a sombria ditadura militar brasileira, o longa-metragem mistura elementos de suspense, humor ácido e realismo mágico, imerso em uma rica cultura pop. A trama acompanha a vida de um acadêmico que se vê ameaçado por pistoleiros em um ambiente repleto de lendas locais e tensão política.

‘O Agente Secreto’ retrata Recife como uma cidade que, apesar de valorizar sua faceta folclórica, se revela cosmopolita e intelectual. Sua arquitetura brutalista destaca-se como um patrimônio muitas vezes desconhecido tanto dentro quanto fora do Brasil.

Desconstruindo Estereótipos

Para o historiador Durval Muniz de Albuquerque Junior, o filme possui uma “importância enorme”, pois quebra a “imagem estereotipada do Nordeste”. Segundo ele, a região frequentemente é retratada de forma caricatice, como um lugar menor e atrasado, especialmente na mídia. Em uma entrevista à AFP, Muniz enfatiza que cineastas como Kleber Mendonça Filho e outros da indústria cinematográfica pernambucana estão comprometidos em desafiar essa visão.

Logo após assistir ao filme, o guia turístico Roderick Jordão sentiu-se inspirado a criar um roteiro que mostrasse os locais de filmagem. Sua empresa, La Ursa Tours, realiza passeios pelo centro histórico de Recife desde 2017, mas este novo projeto é especial. Ele destaca que “O Agente Secreto colocou Recife em uma prateleira que, de outra forma, nenhuma campanha governamental conseguiria”. Enquanto guia um grupo pelos locais como o antigo cinema São Luiz e o histórico Ginásio Pernambucano, ele percebe um aumento significativo no interesse de turistas de outros estados.

Atraindo Visitantes e Celebrando a Cultura

Entre os turistas, está Tomás Santa Rosa, um ator de 22 anos que viajou do Rio de Janeiro até Recife, animado pelo filme. Ele reflete que o artista brasileiro geralmente precisa ir ao Sudeste para ter acesso às produções culturais mais relevantes, mas com ‘O Agente Secreto’, a situação se inverte. “É uma emoção muito grande”, afirma o jovem.

O Ginásio Pernambucano, uma escola com mais de 200 anos, que aparece no filme como Registro Civil, agora recebe visitantes todos os dias. Antônio Rosa, diretor do local, relata que a repercussão tem sido enorme, atraindo olhares tanto de locais quanto de estrangeiros.

Durante o carnaval, o orgulho da cultura pernambucana explodiu nas ruas. Cabines telefônicas amarelas, que remetem ao filme, e bonecos gigantes dos personagens de Moura e Mendonça encheram a cidade vizinha, Olinda. Também se destacaram as representações das “pernas cabeludas”, uma lenda urbana que aparece como uma metáfora da repressão e da desinibição sexual na narrativa do filme.

Símbolo de Esperança e Resistência

Matheus Vitoriano, editor de vídeo de 25 anos, celebrou o impacto do filme no carnaval, ressaltando a relevância de um bom filme pernambucano em disputa pelo Oscar. Segundo ele, é uma “história acontecendo”. Muitos brasileiros estão agora adotando a camiseta amarela e preta da Pitombeira, uma agremiação carnavalesca que utilizou esse modelo em 1978. O item se tornou muito procurado após sua aparição em cenas do filme.

Erivelton Martins Torres, um dos integrantes do grupo que vende as camisetas, revelou que já foram comercializadas cerca de 30 mil unidades, muitas delas exportadas para os Estados Unidos e Europa. A procura se intensificou tanto que eles precisaram alterar o modelo original a ser produzido para 2026, em função do sucesso do filme.

Leandro Castro, famoso por suas criações de bonecos gigantes para o Carnaval de Olinda, não hesitou em homenagear Moura e Mendonça, como já havia feito com Fernanda Torres, também premiada no Oscar. “O Agente Secreto realmente está colocando o patamar do cinema brasileiro onde ele já esteve”, conclui Castro, refletindo a crescente valorização e visibilidade do cinema nacional no cenário mundial.

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