segunda-feira 8 de junho

O impacto do Recife na virada da Seleção Brasileira rumo ao tetra

Antes de encerrar um jejum de 24 anos sem levantar a taça da Copa do Mundo, a Seleção Brasileira encontrou no Recife o ponto de partida para a transformação que culminaria no título de 1994, nos Estados Unidos. Para o ex-zagueiro Ricardo Rocha, que vestiu a camisa brasileira naquela campanha, o gramado do Arruda foi cenário fundamental para o renascimento do time.

Em entrevista exclusiva ao Diario de Pernambuco, durante o lançamento do documentário “Tetra: Acreditar de novo”, da Netflix, Ricardo Rocha relembrou as duas partidas decisivas disputadas na capital pernambucana, que ajudaram a mudar a mentalidade da equipe e fortalecer a relação com a torcida. “O Recife foi essencial para essa mudança de mentalidade e para o carinho do público. Quando chegamos ao aeroporto, às 23 horas, e vimos o povo lotando o local, tudo mudou. Antes, nas partidas em São Paulo e Minas, fomos vaiados. O apoio do torcedor pernambucano elevou o Brasil a outro patamar”, destacou o ex-defensor.

O gesto das mãos dadas e o clima de união no Arruda

Ricardo Rocha também revelou que o icônico gesto das mãos dadas do elenco de 1994, símbolo da união que acompanhou o Brasil até a conquista, teve origem nos gramados do Arruda. “Esse gesto nasceu no Recife e permaneceu até o último jogo da Copa do Mundo. Foi um momento crucial para a reação dos jogadores”, afirmou.

As partidas memoráveis contra Bolívia, em 29 de agosto de 1993, com goleada por 6 a 0 nas Eliminatórias, e o amistoso preparatório contra a Argentina, em 23 de março de 1994, quando o Brasil venceu por 2 a 0 com dois gols de Bebeto, reforçaram a conexão entre time e torcida, criando um ambiente propício para a campanha vitoriosa.

O tetra nos Estados Unidos: histórias que marcaram o futebol brasileiro

O percurso da Seleção nos Estados Unidos foi recheado de momentos emblemáticos, como o famoso “embala neném” de Bebeto, o grito “sai que é tua, Taffarel” e a celebração do “É tetra”. Para Ricardo Rocha, revisitar essa trajetória pelo documentário foi um privilégio. “Apesar das críticas e da derrota em 1990, a gente conseguiu dar a volta por cima com garra, força e união. Esses fatores foram essenciais para conquistar o título”, analisou.

Naquele ano, além da pressão esportiva, o Brasil enfrentava um momento delicado de luto, após a perda do ídolo Ayrton Senna. A Seleção chegou aos EUA com a missão de trazer alegria ao país.

Bastidores e liderança silenciosa de Ricardo Rocha na Copa de 1994

Substituído por lesão no primeiro jogo da Copa, Ricardo Rocha passou a exercer um papel de liderança fora de campo, servindo como elo entre diretoria, comissão técnica e jogadores. O diretor uruguaio Luis Ara, responsável pelo documentário, destacou essa influência: “Ricardo virou um dos pilares do grupo, mostrando que o time não se faz apenas pelos 11 em campo, mas também pelo apoio dos reservas e da comissão”.

Mais de 30 anos depois, a Seleção volta a enfrentar um longo jejum, e Ricardo vê no lateral Danilo a figura que pode assumir esse papel de liderança e equilíbrio, especialmente no atual ciclo comandado por Ancelotti. “Danilo é experiente, confiável e tem a cabeça boa para lidar com o grupo. Fora de campo, será fundamental”, ressaltou.

Convocação de Neymar e paralelos com o passado

Assim como Romário enfrentou questionamentos antes da Copa de 1994, Neymar passou por incertezas até ser convocado por Ancelotti para o Mundial de 2026, também nos EUA. Para o diretor Luis Ara, a estratégia de anunciar Neymar no último momento foi inteligente e reforça a capacidade de treinadores em manejar grupos, como Felipão em 2002 e Parreira em 1994.

Ricardo Rocha reforça que a presença de Neymar é essencial, não pelo desempenho recente, marcado por lesões, mas pelo peso que o jogador tira dos ombros dos colegas. “Ele será convocado pela qualidade que tem. Os jogadores pedem o Neymar para dividir a responsabilidade com os mais jovens”, concluiu o tetracampeão.

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