sábado 17 de janeiro

Cenário Desafiador para o Agronegócio

Até o terceiro trimestre de 2025, mais de 5 mil empresas brasileiras estavam enfrentando processos de recuperação judicial. Esse número representa um aumento de 19,8% em relação ao mesmo intervalo de 2024, evidenciando uma tendência crescente desse fenômeno no Brasil, conforme demonstra o Monitor RGF.

No que tange aos setores, o comércio lidera a lista com 1.207 recuperações judiciais, mas o agronegócio se destaca com um crescimento acentuado: 14,2% em comparação ao trimestre anterior e impressionantes 67% em relação ao terceiro trimestre de 2024.

Um especialista da RGF menciona que a situação no agronegócio é preocupante. “A alta de juros, combinado com adversidades climáticas e oscilações de preços, tem pressionado fortemente as empresas do setor”, afirma. O Índice de Recuperação Judicial (IRJ), que calcula a quantidade de empresas em recuperação a cada mil estabelecimentos, revela que uma média de 12,63 estão nessa condição no agronegócio.

Aumento de Casos e Pressões Externas

Com 443 processos de recuperação judicial registrados, o setor agropecuário está sob intensa observação. O relatório analisa mais de 2 milhões de empresas, excluindo microempresas, ONGs e filiais, para obter um panorama realista. Na indústria, também houve um crescimento de 4,2% nas recuperações judiciais em relação ao segundo trimestre de 2025, totalizando 1.168 casos. O setor de construção, energia e saneamento, por sua vez, acumulou 1.104 processos, com um aumento de 3,2% no mesmo período.

Rodrigo Gallegos, especialista em reestruturação e sócio da RGF, alerta que a situação continua desafiadora. Para ele, a combinação de juros altos e a restrição de crédito têm pressionado as empresas a buscarem ‘dinheiro novo’ para reestruturação, uma vez que as instituições financeiras estão se mostrando cada vez mais cautelosas em relação ao risco.

O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) optou por manter a taxa Selic em 15% em sua última reunião do ano. As projeções do mercado, conforme indicado no Boletim Focus de 22 de dezembro, prevêem que a taxa básica de juros pode cair para 12,25% em 2026.

Impactos do Cenário Econômico e Externo

Diante do quadro de juros elevados ao longo de 2025, que visavam conter uma inflação projetada para encerrar o ano acima da meta estabelecida, o crédito corporativo se manteve restrito. Segundo a RGF, os spreads, que historicamente permanecem altos, devem continuar assim no curto prazo, especialmente com a proximidade do ciclo eleitoral de 2026.

O ambiente externo também trouxe desafios adicionais. Com o dólar em níveis superiores a R$ 5 e constantes flutuações, a pressão sobre produtos e insumos importados aumentou. Além disso, o aumento de impostos sobre produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos, através do chamado tarifaço, complicou ainda mais a situação.

Entre os casos emblemáticos registrados em 2025, destaca-se a recuperação judicial da Bombril, solicitada no início do ano. O pedido ocorreu cerca de dois anos após a empresa ter negado tal possibilidade, quando precisou recorrer a uma transmissão de direitos creditórios no valor de R$ 300 milhões. Em um fato relevante, a empresa declarou que a medida foi necessária para conduzir “de forma organizada, um procedimento abrangente de negociação com todos os interessados”.

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