sábado 14 de março

O Papel das Redes Sociais na Comunicação Política

As redes sociais emergiram como um dos principais palcos para a disputa política, mobilização social e formação de consciência. Esse aspecto foi tema central da mesa “Plataformas digitais na disputa de projetos: leitura crítica das ferramentas de comunicação”, realizada durante o 10º Encontro Nacional de Comunicação da CUT (Enacom), que ocorreu de 12 a 14 de março na sede do Dieese, em São Paulo.

A mesa contou com a participação do comunicador e influencer Ivan Vieira e da jornalista Nina Fideles, diretora executiva do Brasil de Fato, sob a mediação de Maria Faria, secretária de Comunicação da CUT Nacional. Durante o debate, foram discutidos os desafios enfrentados pela comunicação progressista no ambiente digital, a relevância das redes sociais na disputa de narrativas e a urgência de fortalecer a presença do campo democrático nessas plataformas.

Transformações e Desafios da Comunicação Política

Ivan Vieira abriu a conversa ressaltando que a comunicação política está passando por uma transformação significativa, onde as redes sociais deixaram de ser um mero complemento das estratégias tradicionais de comunicação. Para ele, é um equívoco considerar as redes sociais como uma mera ferramenta auxiliar.
“Muita gente fala que rede social é importante para disputar narrativa ou ganhar eleição. Não. A rede social não é importante — ela é essencial. Hoje não é mais um auxiliar. É onde a gente tem que estar, ouvir e disputar”, enfatizou Vieira.

Ele apontou que uma das principais mudanças necessárias é a abordagem na comunicação. Segundo Vieira, uma linguagem excessivamente institucional ou publicitária pode criar barreiras entre a mensagem política e o público. “As pessoas querem se sentir conectadas com quem está falando. A vida real se conecta com pessoas reais”, afirmou.

O comunicador compartilhou sua experiência nas redes sociais, destacando o potencial de alcance das plataformas quando utilizadas com constância e estratégia. “Hoje tenho quase dois milhões de seguidores e cerca de 80 milhões de visualizações por mês. Se eu consegui, todo mundo consegue, pois sou uma pessoa extremamente tímida e low profile”, relatou.

A Disputa Narrativa e a Desigualdade de Recursos

Vieira também alertou sobre a necessidade de rapidez nas respostas e de uma presença contínua nas redes sociais. Ele destacou que, muitas vezes, a extrema direita consegue estabelecer a narrativa primeiro, criando versões que se tornam difíceis de contestar posteriormente. “Quando a gente reage, o estrago já foi feito. O que você constrói em 50 anos pode ser destruído em um dia numa rede social”, advertiu.

Outro ponto que ele trouxe à tona foi a disparidade de recursos entre comunicadores progressistas e aqueles da extrema direita, que frequentemente contam com financiamentos robustos de elites. “No nosso campo, o criador de conteúdo faz isso por paixão, enquanto a direita tem financiamento e apoio institucional. Precisamos entender que quem tem centenas de milhares de seguidores pode impactar muitas pessoas e não deve ser visto apenas como um militante”, argumentou.

Ele concluiu sua fala defendendo que a comunicação política deve ser simples e direta para garantir que as mensagens atinjam um público mais amplo. “Discurso burocrático não ganha confiança. A vida como ela é impacta mais. Precisamos falar de forma que todos entendam”, aconselhou Vieira.

Reflexões sobre a Comunicação e Democracia

Na sequência do debate, Nina Fideles apresentou uma visão crítica sobre os limites do ambiente digital. Para ela, embora as redes sociais ampliem a circulação de conteúdos, isso não garante que haja uma verdadeira democratização da comunicação. “Abrir um canal para falar não significa que houve democratização”, alertou.
Fideles também enfatizou a importância de não avaliar o sucesso da comunicação apenas pelos números de audiência. “A audiência pode enganar. Às vezes, a matéria mais lida é um serviço sobre feriados. O que importa é o impacto político”, destacou.

Ela citou exemplos de reportagens que efetivamente provocam mudanças sociais, além de ressaltar que diferentes estruturas de comunicação desempenham papéis distintos na disputa política. “Veículos independentes, assessorias e comunicação sindical têm funções diversas nessa luta”, disse.

Fideles finalizou seu discurso abordando a mudança no consumo de informação, especialmente entre os jovens. “Crianças e adolescentes recebem conteúdos filtrados por algoritmos. Precisamos voltar ao básico e explicar questões fundamentais da política”, defendeu. Ela acredita que a comunicação precisa ser uma ferramenta que subsidia a compreensão do que está em jogo, mas sem a organização e participação política, não pode por si só resolver as questões em debate.

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