segunda-feira 9 de fevereiro

A Nova Versão de Dona Beja: Um Olhar Contemporâneo

Quatro décadas atrás, tive a experiência de cobrir a novela Dona Beja para uma revista de TV semanal no Rio de Janeiro. Para isso, assistia aos capítulos todos os dias e visitava frequentemente os cenários das gravações. As cenas internas eram realizadas nos estúdios da TV Manchete, localizados no subúrbio carioca, onde, em meio ao calor intenso, os atores enfrentavam a dificuldade de usar roupas e perucas pesadas de época. O diretor Herval Rossano, já falecido, era conhecido por seu estilo rigoroso, e mesmo eu, uma jovem jornalista recém-formada, sentia um certo temor ao trabalhar sob seu comando. Hoje, compreendo a importância de um líder forte em uma produção tão complexa, especialmente em uma novela de época como Dona Beja, que se destacou pela audiência sob a direção de Herval, superando a TV Globo, até então líder no mercado de teledramaturgia.

Todo o esforço do elenco e da equipe não foi em vão. A Beja da primeira versão, interpretada por Maitê Proença, se destacou por uma narrativa ousada, que desafiou as normas da época com cenas de sexo inovadoras e provocativas. O resultado foi uma repercussão instantânea e um público cativado.

Recentemente, a HBO Max lançou uma nova adaptação contemporânea de Dona Beja, que reimagina a icônica personagem de Araxá (MG) do século 19, agora integrando discussões sobre temas urgentes como racismo, imperialismo e escravidão, além de tópicos contemporâneos como a transexualidade e a emancipação feminina. A escolha de Grazi Massafera para o papel principal é uma ótima atualização, refletindo o mesmo carisma que fez de Maitê Proença um ícone. Ambas são, sem dúvida, mulheres de beleza estonteante.

Um Elenco Diversificado e Temas que Resoam

Na nova versão, Grazi Massafera encarna Ana Jacinta, a protagonista, provando mais uma vez seu talento como atriz e conseguindo dissipar a imagem de ex-participante de reality show. O papel do amor de Beja, Antônio, que foi interpretado originalmente por Gracindo Júnior, agora é vivido por David Júnior, um ator negro, alinhando-se com o compromisso da nova produção em diversificar o elenco, algo antes impensável em uma narrativa marcada pela escravidão. O cuidado estético com a cenografia e a fotografia é notável, refletindo um alto padrão de qualidade na produção.

A releitura para o streaming da obra, que se baseia no livro A Feiticeira do Araxá, de Thomas Leonardo (1957), contará com um total de 40 capítulos, sendo cinco deles lançados por semana. Este novo formato também inclui figuras notáveis como Deborah Evelyn, Thalma de Freitas, Bianca Bin, Bukassa Kabengele, André Luiz Miranda, Indira Nascimento, Pedro Fasanaro e Isabela Garcia, sob a direção de Hugo de Sousa.

Diferentemente da versão dos anos 2000, que apresentava uma Beja mais angelical, Grazi Massafera traz uma interpretação que reflete uma beleza mais fatal. Em uma abordagem contemporânea sobre sexualidade nas artes, a atriz não hesita em exibir seu corpo nu frontal, quebrando tabus estabelecidos anteriormente e apresentando uma Beja menos suave, mais intensa e multifacetada.

Mudanças no Roteiro e Inclusão de Gêneros

Nos primeiros episódios exibidos pela HBO Max, fica evidente que o roteiro também passou por adaptações. Uma cena que se destaca é a entrega da virgindade de Beja a um padre, que, na versão original, acontecia de uma forma discreta na igreja. Na nova interpretação, essa cena se desenrola à beira de um rio, com uma abordagem mais direta e sem cortes.

Além disso, a inclusão de diversidade de gênero é marcante. Severina, que era uma escrava na versão anterior, agora é apresentada como uma pessoa transgênero, um exemplo claro da evolução da narrativa para refletir mais vozes e experiências. A adaptação realizada por Daniel Berlinsky e António Barreira traz uma nova perspectiva, incorporando um olhar mais contemporâneo às discussões sociais e culturais.

Os cinco primeiros capítulos de Dona Beja, exibidos na HBO Max, mostram um produto que abraça a diversidade e a liberdade criativa em relação ao texto original. Embora a nova versão possa não agradar aos fãs da trama original, certamente possui o potencial de conquistar um novo público, ampliando os horizontes da narrativa e sua relevância nos dias atuais.

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