Modelo de Sucesso em Recife
Na década de 1990, o centro histórico de Recife enfrentou um êxodo de indústrias e profissionais, principalmente da área de tecnologia da informação, que migraram para São Paulo e Rio de Janeiro, evidenciando a perda de atratividade da região. Nesse cenário, surgiu o Porto Digital, um projeto visionário destinado a estimular a instalação de empresas de tecnologia e reter talentos na cidade.
O Porto Digital, que se transformou em um importante cluster global de inovação, foi destacado como um case de sucesso recente em uma reunião do Conselho de Inovação da Associação Comercial de São Paulo (CONIN), realizada na última quinta-feira (12). O evento contou com a presença de figuras importantes do setor, incluindo Tito Hollanda, presidente do CONIN; Cláudio Marinho, diretor da Porto Marinho; e Francisco Saboya, conselheiro do Sebrae e do Porto Digital.
Impacto e Crescimento do Porto Digital
Situado no coração do centro histórico de Recife, o Porto Digital teve um início modesto, com apenas duas empresas. Hoje, reúne cerca de 500 companhias no parque tecnológico, gerando um faturamento superior a R$ 6 bilhões e empregando mais de 21 mil pessoas. O espaço também se destaca pela revitalização de mais de 220 mil metros quadrados de imóveis. Entre as empresas que fazem parte desse polo estão nomes como Acumuladores Moura S.A., Bradesco, Banco do Brasil e Deloitte.
A trajetória do Porto Digital é resultado da colaboração entre o setor privado, o governo e instituições acadêmicas. O governo de Pernambuco investiu R$ 33 milhões na infraestrutura do projeto, enquanto empresas de telecomunicações e firmas privadas contribuíram com R$ 11 milhões adicionais. Essa união resultou no Núcleo de Gestão do Porto Digital (NGPD), que é responsável pela administração do projeto e é composto por um conselho com 19 membros, incluindo representantes do setor empresarial, do governo e de universidades.
Vantagens da Localização e Atração de Negócios
Marinho ressalta que, além de atrair empresas de tecnologia, o Porto Digital também revitalizou a área central de Recife, impulsionando o mercado imobiliário e fomentando a abertura de diversos estabelecimentos, como restaurantes, hotéis e empreendimentos residenciais. Exemplos incluem o Novotel Marina do Cais de Santa Rita e o Apolo 181, além do espaço YOLO Coliving, dedicado a moradias de curta duração. Hoje, a região conta com 113 estabelecimentos, entre bares, restaurantes e espaços culturais, todos a poucos minutos de caminhada.
Um dos aspectos que contribui para o sucesso do Porto Digital é a proximidade entre trabalho, serviços e moradia, com deslocamentos que não ultrapassam cinco minutos. Outro fator relevante é o valor cultural da área, que possui uma forte ligação com a história da cidade, atraindo assim empresas e organizações.
Acessibilidade e Transformações Necessárias
O Porto Digital é aberto a novas empresas que queiram instalar centros tecnológicos, oferecendo imóveis para aluguel com valores que variam de acordo com a localização e o tamanho. Saboya, um dos conselheiros do projeto, destaca que um dos principais aprendizados do Porto Digital é que a sociedade evoluiu de uma lógica industrial para uma economia baseada em serviços. “Hoje, os clientes têm acesso a uma gama de informações e estão mais prontos para tomar decisões. O mercado se movimenta de acordo com a demanda do consumidor, ao contrário do que acontecia anteriormente”, afirma.
Ele aponta um desafio significativo: muitas empresas estão simplesmente digitalizando processos que já estão defasados, o que reduz sua competitividade no mercado atual. Por isso, é essencial que as organizações adotem estratégias digitais e atuem em ecossistemas colaborativos.
A Visão para São Paulo
Em relação a São Paulo, Marinho sugere que investir em setores alinhados às necessidades da região é crucial para revitalizar centros históricos. Embora o turismo seja uma aposta comum, ele argumenta que cidades conhecidas por essa atividade, como Rio de Janeiro e Maceió, não têm mais de 3% de sua massa salarial ligada ao setor de turismo. Gramado, por outro lado, se destaca com 28% nessa relação.
Marinho identifica três áreas em São Paulo com potencial de revitalização. A primeira é a Praça Princesa Isabel, que abrigará o novo Centro Administrativo do Governo. A segunda é a área em torno do edifício Copan, onde já há um movimento comunitário de revitalização. A terceira é a Rua Boa Vista, próxima a edificações históricas, como o Pateo do Colégio.
Ele destaca a importância de atrair moradias e empresas para o centro, uma vez que atualmente muitos empregos estão concentrados em locais como a Avenida Paulista e a região da Berrini. Inspirado no modelo do Porto Digital, Marinho propõe a criação de polos de empregos altamente qualificados na região central de São Paulo, o que pode desencadear novos projetos habitacionais e fortalecer ainda mais o mercado imobiliário.

