São José dos Campos e o pioneirismo tecnológico
Quando o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) foi inaugurado em São José dos Campos em 1950, termos como ecossistema de inovação e distrito tecnológico ainda não faziam parte do vocabulário das cidades brasileiras que buscavam atrair empresas e investimentos. Décadas depois, o município paulista passou a ser citado ao lado de polos tecnológicos renomados como Shenzhen, Austin, Eindhoven e Singapura, em análises que comparam centros de tecnologia industrial ao redor do mundo.
Embora a escala desses polos varie bastante, eles compartilham características essenciais: uma indústria robusta que impulsiona toda uma cadeia produtiva e universidades integradas à inovação e pesquisa. Este modelo tem sido fundamental para o desenvolvimento sustentável desses centros.
Exemplos internacionais que inspiram
Shenzhen é um exemplo claro de como a inovação pode se fundir com a indústria. Em 2025, o corredor formado por Shenzhen, Hong Kong e Guangzhou liderou o ranking mundial de clusters de inovação da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), vinculado à ONU, que avalia o desempenho dos polos tecnológicos globais. O ranking considera indicadores como patentes internacionais, publicações científicas e investimentos de capital de risco.
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Em 2024, Shenzhen investiu 245,3 bilhões de yuans em pesquisa e desenvolvimento, o que representa 6,67% do PIB municipal — o segundo maior investimento entre as cidades chinesas. As empresas contribuíram com 93,5% desse total, evidenciando a forte ligação entre setor produtivo e inovação. Atualmente, mais de 26 mil companhias nacionais de alta tecnologia atuam na cidade, acelerando o processo que transforma ideias em produtos disponíveis no mercado.
Austin, nos Estados Unidos, destaca-se não só pela base industrial, mas pelo volume significativo de capital de risco disponível. Em 2025, as startups locais captaram US$ 7,24 bilhões, o quinto maior valor entre as grandes regiões metropolitanas americanas. Esse capital é complementado por uma universidade fortemente conectada à indústria e uma base sólida em manufatura tecnológica, reforçada por investimentos superiores a US$ 1,25 bilhão desde 2023 em projetos ligados à Universidade do Texas, incluindo semicondutores e capacitação profissional. Essa infraestrutura financeira e educacional ajuda a reduzir os obstáculos entre a pesquisa e o mercado, uma dificuldade ainda enfrentada por ecossistemas tecnológicos mais jovens.
Eindhoven, na Holanda, embora não tenha a escala de Shenzhen nem o volume financeiro de Austin, conseguiu estruturar uma rede eficiente ao redor de empresas âncora como ASML, Philips e NXP. Segundo um estudo da Vrije Universiteit Amsterdam, divulgado em 2026, o polo responde por 57% dos gastos privados em pesquisa e desenvolvimento no país. A força do modelo está na colaboração entre fornecedores especializados, programas de formação e uma governança integrada que reúne empresas, universidades e governo municipal.
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Já Singapura demonstra como uma política pública coordenada pode atrair grandes investimentos. Em 2025, a cidade-Estado captou compromissos de S$ 14,2 bilhões em investimentos fixos, impulsionados por setores como semicondutores, biomedicina e infraestrutura para inteligência artificial. Embora muitas das competências necessárias para esse modelo estejam relacionadas a políticas nacionais, como tributação e imigração, algumas práticas podem ser adaptadas, como oferecer terrenos e infraestrutura prontos para investidores, processos de licenciamento ágeis e facilitação do acesso a fornecedores e centros de pesquisa.
O desafio brasileiro e o futuro de São José dos Campos
São José dos Campos já reúne parte dessa arquitetura, especialmente pela presença histórica do Instituto Tecnológico de Aeronáutica e da Embraer. A cidade busca acompanhar esses modelos internacionais, tentando ampliar seu ecossistema tecnológico para além da base industrial consolidada. O principal desafio do Brasil, e em especial do município paulista, está menos na existência de uma indústria relevante e mais na capacidade de multiplicar negócios ao redor dela, criando um ambiente propício para startups, inovação e atração de investimentos.
Com essa perspectiva, São José dos Campos pode consolidar seu papel como referência nacional em tecnologia, aplicando aprendizados globais para fortalecer o setor industrial e ampliar a geração de novos negócios tecnológicos, impactando não só a economia local, mas também o desenvolvimento tecnológico do país.
