segunda-feira 12 de janeiro

Uma Abordagem Transformadora para o Luto

Wellington Barreto dos Santos, um jovem de 25 anos, encontrou uma maneira única de expressar seu desejo de reencontro e felicidade. Durante uma sessão de terapia em grupo, ele escolheu a música “Girassol”, de Priscilla Alcântara e Whindersson Nunes, para compartilhar suas emoções com a psicóloga Pamella Becegati, de 31 anos. A dinâmica, realizada na UBS Jardim Colombo, na Vila Sônia, zona oeste de São Paulo, propõe o uso de canções como um meio de dar voz aos sentimentos.

Em dezembro, a reportagem teve a oportunidade de acompanhar uma dessas sessões e dialogar com os participantes que vivenciam a dor da perda. No caso de Wellington, a ausência de duas tias e um amigo gerou uma grave ansiedade, levando-o a se juntar ao grupo há cerca de quatro meses. “Uma das tias eu perdi há cinco anos. Tínhamos muito convívio, afeto e amor. E sonhos de viajar e aproveitar a vida. Levo o retrato dela em todas as viagens. A outra tia eu a tirei morta de dentro de casa. Foi como arrancar um pedaço do meu coração. O meu amigo morreu num acidente. Era cheio de vida e sonhos”, relembra.

O jovem admite que durante muito tempo sofreu em silêncio, sem compartilhar sua dor com ninguém. “Sofri calado esse tempo, não contei nem aos meus pais. Só ficava trancado no quarto. Aqui [no grupo] encontrei afeto, passei a enxergar a vida de novo. Hoje eu consigo reviver os momentos que tive com essas pessoas sem medo das crises de ansiedade”, revela Wellington, aliviado ao encontrar um espaço seguro para expressar sua dor.

A psicóloga Pamella destaca a importância da música como ferramenta de reflexão durante as sessões. “Qual foi o primeiro pensamento que tiveram? Qual experiência a música trouxe? Quais memórias são colocadas ali?” são algumas das questões que ela propõe aos participantes.

Entendendo o Luto e o Acompanhamento Psicológico

O luto é um processo complexo que envolve reações emocionais, físicas, comportamentais e sociais diante de uma perda significativa. Muitas vezes, a dor intensa pode dificultar a retomada de atividades cotidianas e o convívio social. Recentemente, o Ministério da Saúde passou a reconhecer o luto prolongado como um transtorno mental.

De acordo com a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, os enlutados que buscam apoio psicológico podem encontrar acolhimento nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), onde o atendimento pode ser realizado de forma individual, em casos mais severos, ou em grupos de adultos.

As UBSs contam com equipes multiprofissionais, e frequentemente uma assistente social acompanha as sessões, realizando os encaminhamentos necessários à rede de saúde municipal. Esse suporte se mostrou essencial para muitos participantes.

Massumi Hirota Tunkus, de 65 anos, compartilha sua experiência ao longo dos 18 anos desde a morte do marido. “Eu estava estagnada e com situações mal resolvidas. Cheguei no grupo há três meses para viver o luto e encontrei uma família. Aqui ninguém vai me recriminar. Estamos todos no mesmo barco”, observa Massumi.

Solange Maria de Assunção Modesto, de 61 anos, ainda luta para aceitar a perda da irmã, que faleceu após um transplante de medula óssea. “A troca de experiências dá uma força. As dinâmicas nos ajudam em algumas atitudes e isso contribui para o nosso fortalecimento”, comenta.

Dinâmicas de Reflexão e Acolhimento

Durante as sessões, os participantes são convidados a manusear pinhas de eucalipto, trazendo à tona reflexões sobre como estão internamente e o que gostariam de mudar em suas vidas. “A missão é olhar para dentro das pinhas e refletir sobre como estão por dentro, o que gostariam de mudar e por quê”, explica Pamella. Ela menciona que a mudança está muito ligada a questões de liberdade e paz, fundamentais para o processo de luto.

A psicóloga também utiliza um diário como parte das atividades, permitindo que os participantes expressem suas emoções. “Você pode escrever o que gostaria de ter falado para quem partiu e não teve tempo, ou contar o quanto é difícil viver sem a presença daquela pessoa”, sugere.

Os encontros, realizados às segundas-feiras às 16 horas, têm duração de 50 minutos e contam com cerca de dez participantes cada sessão. Pamella enfatiza que o trabalho é voltado para fortalecer os vínculos e oferecer um espaço de fala e elaboração do luto, utilizando dinâmicas que incluem girassóis, cartas e o plantio de feijões.

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