Crime Choca a Comunidade e Renova Discussões sobre Feminicídio
O início de 2026 foi marcado por uma tragédia em Remanso, cidade no norte da Bahia. Um casal de mulheres foi encontrado sem vida nas primeiras horas do dia 1º de janeiro, poucas horas depois de serem vistas celebrando a virada do ano em uma festa pública.
Imagens compartilhadas nas redes sociais mostram as duas sorrindo e dançando, pouco antes do crime que abalou a cidade e gerou grande comoção. Conhecidas na comunidade, as vítimas eram unidas por um relacionamento amoroso, que agora se tornou um símbolo da luta contra a violência de gênero e a lesbofobia.
A Polícia Civil revelou que já identificou um suspeito, que também foi encontrado morto no local. Segundo informações preliminares, ele era o ex-companheiro de uma das vítimas. A motivação do crime está sendo investigada, mas as autoridades já tratam o caso como feminicídio, de acordo com a legislação brasileira.
Interseção de Ódio: Misoginia e Lesbofobia
O assassinato do casal não pode ser visto como um mero caso de violência contra a mulher. Ele representa uma interseção entre misoginia, que é o desprezo sistemático pelo feminino, e lesbofobia, uma aversão específica àquelas que amam outras mulheres.
Mulheres lésbicas enfrentam uma vulnerabilidade única, sendo vítimas tanto da violência machista, que visa controlar seus corpos e escolhas, quanto do preconceito em relação à sua orientação sexual. Quando um ex-companheiro comete um crime desse tipo, há uma mensagem brutal de que a autonomia feminina, especialmente sem a presença masculina, pode resultar em tragédias.
Desde 2015, o feminicídio é tipificado no Brasil, reconhecendo que mulheres são assassinadas pelo simples fato de serem mulheres. Contudo, quando a vítima é lésbica, a violência assume proporções ainda mais cruéis e frequentemente não é reconhecida como tal legalmente.
Cenário de Violência Letal Contra Mulheres LBTQIA+
O crime em Remanso não é um caso isolado. Ele se insere em um contexto alarmante de violência letal contra mulheres LBTQIA+ no Brasil. Recentes assassinatos têm mobilizado movimentos sociais e organizações de direitos humanos, especialmente quando o ato é motivado por lesbofobia.
Em dezembro de 2023, Ana Caroline Souza Campelo, de 21 anos, foi assassinada de maneira brutal em Maranhãozinho (MA). A jovem lésbica foi sequestrada e seu corpo encontrado com sinais de tortura. Já em novembro de 2025, Elizeu Carvalho de Castro foi condenado a quase 28 anos de prisão por feminicídio. Movimentos sociais têm clamado por uma tipificação mais clara de lesbocídio em casos como esses.
Outro caso que chocou o Brasil foi o assassinato de Vitória, uma adolescente de 16 anos, em Parelheiros, Zona Sul de São Paulo, em outubro de 2025. Vitória foi morta pelo pai da namorada, que não aceitava o relacionamento das duas. A brutalidade do crime, que incluiu o envolvimento da própria filha na ocultação do corpo, evidencia o nível de intolerância presente na sociedade.
Dados Alarmantes e a Invisibilidade da Violência
Ativistas e especialistas afirmam que os dados oficiais sobre mortes de mulheres LBTQIA+ não refletem a realidade. Muitos crimes não são devidamente investigados, sendo classificados como homicídios comuns, sem considerar a motivação de ódio e discriminação.
Conforme o Grupo Gay da Bahia, foram registrados 291 assassinatos de pessoas LGBTQIA+ em 2024, dos quais 11 eram lésbicas. O LesboCenso Nacional de 2021-2022, realizado pela Liga Brasileira de Lésbicas (LBL), revelou que 78,61% das mulheres lésbicas entrevistadas já sofreram discriminação e 24,76% relataram ter sido vítimas de estupro.
Esses dados evidenciam um padrão estrutural de lesbofobia e a necessidade urgente de ações governamentais robustas para o registro e combate a essa violência.
Movimentos de Luto e Luta por Justiça
Amigos, familiares e a comunidade de Remanso têm se mobilizado em homenagem às vítimas, exigindo justiça. Ações simbólicas, protestos e mensagens de solidariedade nas redes sociais reforçam a necessidade de respostas rápidas do poder público.
Esse crime tragicamente nos lembra da urgência de políticas públicas eficazes para prevenção, educação e proteção das vítimas de violência. No Congresso Nacional, o Projeto de Lei 3.983/2024, apresentado pela deputada Carla Ayres (PT-SC), propõe a inclusão do lesbocídio como um tipo penal, um passo importante para reconhecer e combater essa violência específica.
Assim, a tragédia em Remanso se torna um alerta coletivo: amar e existir livremente não deveria resultar em luto. A memória das vítimas é um chamado à justiça, respeito e ao direito de viver sem medo.
