sexta-feira 6 de fevereiro

Crescimento do Turismo e a Nova Queridinha do Nordeste

João Pessoa tem se destacado como um modelo de turismo “sustentável”, atraindo visitantes com suas belas praias e por ser o ponto mais oriental das Américas. Com uma proposta de cidade verde e tranquila, a capital paraibana se tornou a “nova queridinha” do Nordeste, especialmente durante a temporada de verão. Como noticiou a BBC Brasil, o estado da Paraíba liderou o crescimento na preferência dos brasileiros para a alta temporada. A expectativa da Prefeitura é que a ocupação hoteleira atinja quase 100% entre dezembro e fevereiro, com a previsão de abertura de mais de 10 mil novas vagas em hotéis em construção nos próximos três anos.

Eventos culturais, como o Forró Verão e o Sabadinho Bom, têm atraído multidões e promovido o lazer e a cultura na cidade. Além disso, intervenções urbanas, como a criação de praças nas ruas e a concentração de parques nos bairros do Bessa e Jardim Oceania, são frequentemente mencionadas como iniciativas positivas. Porém, a questão que persiste é: essas ações atendem realmente às necessidades da população local?

A Explosão Populacional e o Aumento da Qualidade de Vida

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que a Paraíba superou a média nacional e nordestina em crescimento populacional. Nos últimos anos, João Pessoa se consolidou como a capital do Nordeste com maior crescimento proporcional, atingindo cerca de 4,164 milhões de habitantes — um aumento de 4,77% em relação ao Censo de 2022. Uma parcela significativa dessa nova população é composta por aposentados e nômades digitais, atraídos por uma qualidade de vida elogiada nas redes sociais.

Entretanto, a ascensão da capital paraibana no cenário turístico traz à tona questões complexas. O marketing eficaz pode ocultar problemas profundos relacionados à urbanização e à qualidade de vida. Embora o discurso sobre turismo e desenvolvimento urbano seja otimista, muitos locais ainda enfrentam desafios estruturais que não são abordados, levantando a questão: a quem realmente beneficia esse modelo de turismo?

Turismo de Massa e Seus Impactos

Os efeitos do turismo de massa em João Pessoa são visíveis. O aumento do número de visitantes altera a dinâmica urbana, com problemas de infraestrutura, como a crescente produção de resíduos e o descarte inadequado de esgoto. O planejamento da cidade, focado na maximização de lucros durante a alta temporada, contrasta com a ausência de soluções estruturais para problemas que persistem ao longo do ano. Casos de esgoto sendo despejado nas praias, muitas vezes misturado à drenagem pluvial, são emblemáticos dessa desconexão entre discurso e realidade.

Especialistas em sociologia urbana afirmam que o turismo de massa não é apenas um efeito colateral, mas uma parte intrínseca de um modelo urbano que prioriza o lucro em detrimento do bem-estar da população. As desigualdades sociais e os problemas ambientais estão interligados, exigindo um olhar crítico sobre como o espaço urbano está sendo gerido.

Desafios no Setor Habitacional

A verticalização desenfreada em João Pessoa, a cidade que mais cresce em termos de construção vertical no Nordeste, gera preocupações. Com a construção de flats e imóveis para aluguéis de curta duração, a habitação se transforma em um ativo financeiro, elevando os preços e contribuindo para a expulsão de moradores de baixa renda. O filósofo Henri Lefebvre, autor de “O Direito à Cidade”, critica essa mercantilização do espaço urbano, onde o valor de uso é ofuscado pela busca de lucro.

Mobilidade Urbana e Omissão Governamental

A mobilidade urbana em João Pessoa é outro ponto crítico. A dependência de transporte individual e a precariedade do transporte público são agravadas pela falta de planejamento. O aumento do fluxo turístico intensifica os congestionamentos, com o transporte público enfrentando queixas frequentes sobre superlotação e qualidade. O custo do transporte público, um dos mais altos do Nordeste, não condiz com o serviço prestado, ilustrando a desigualdade social na cidade.

Resistência e Mobilização Popular

Enquanto isso, a resistência popular ganha força. Movimentos sociais têm surgido para defender o direito à cidade e reivindicar uma gestão mais justa e transparente. O Movimento Esgotei, por exemplo, denuncia o despejo inadequado de esgoto nas praias e promove ações de mobilização e conscientização. A luta por um espaço urbano que atenda os interesses da população, e não apenas os de grupos empresariais, se torna vital.

A responsabilidade pela gestão do espaço urbano recai sobre os governos, que precisam responder por suas ações e omissões. A promoção de um turismo sustentável deve estar atrelada a um planejamento que priorize a qualidade de vida da população local, não apenas a atração de turistas.

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