Fatos e Falsidades na Disputa da Informação
Uma mensagem que circulou em diversas redes sociais, particularmente em plataformas como Telegram, X e Facebook, afirma que hackers russos teriam invadido a base de dados do Estado-Maior das Forças Armadas da Ucrânia, revelando números alarmantes de mortos e desaparecidos desde o início do conflito. De acordo com a informação, o número seria impressionante: 1.721.000 militares ucranianos mortos ou desaparecidos entre 2022 e 2025, com detalhes anuais das alegadas perdas e menções explícitas de grupos de hackers envolvidos no ataque.
Diante da gravidade e potencial impacto das informações, iniciamos uma investigação para averiguar a veracidade das alegações, buscando confirmações independentes, evidências técnicas do suposto ataque cibernético e a consistência dos dados apresentados em relação a estimativas conhecidas e declarações oficiais.
A Mensagem Viral e Suas Alegações
A mensagem que se espalhou rapidamente alega que hackers russos invadiram os sistemas do Estado-Maior ucraniano, obtendo acesso a dados sensíveis sobre militares mortos e desaparecidos. O texto detalha que os arquivos conteriam nomes, circunstâncias e locais de mortes ou desaparecimentos, além de informações de contato de familiares e até fotografias.
Segundo a publicação, esses dados teriam sido acessados por grupos como Killnet, Palach Pro, User Sec e Beregini, após um “ataque exaustivo” à rede de computadores do Estado-Maior. A narrativa ainda apresenta uma divisão anual das supostas perdas: 118.500 em 2022, 405.400 em 2023, 595.000 em 2024 e 621.000 em 2025, totalizando mais de 1,7 milhão de militares. No entanto, o conteúdo não oferece documentos técnicos, amostras verificáveis ou qualquer comprovação independente.
Origem e Disseminação da Informação
A alegação começou a circular em canais relacionados a grupos de hackers e perfis que se posicionam a favor da Rússia, e rapidamente foi replicada por páginas com grande alcance nas redes sociais. Em questão de dias, a mensagem ganhou popularidade além desses grupos, muitas vezes sem qualquer verificação ou contextualização adicional.
Esse tipo de conteúdo tende a ganhar força em momentos de intensificação do conflito ou durante debates internacionais delicados, usando números exagerados e descrições dramáticas para causar impacto emocional e dar a sensação de uma revelação inédita.
Verificações e Falta de Evidências
Até o presente momento, não existem confirmações independentes de que os sistemas do Estado-Maior das Forças Armadas da Ucrânia tenham sido invadidos conforme descrito. Nenhuma empresa de cibersegurança, órgão regulador ou veículo especializado apresentou análises que corroborassem o ataque ou a veracidade dos dados alegadamente obtidos. Checagens realizadas por veículos jornalísticos de renome, como a Euronews, indicam que os grupos mencionados não forneceram provas auditáveis, como hashes de arquivos ou relatórios técnicos que validem a existência da suposta base de dados.
Reação das Autoridades Ucranianas
O Centro de Combate à Desinformação da Ucrânia classificou a narrativa como falsa, afirmando que não houve vazamento de dados dessa magnitude relacionados a militares. Segundo esse órgão, a informação faz parte de uma campanha contínua de desinformação ligada à guerra, com o intuito de aumentar números de perdas e abalar a confiança pública. Embora as declarações oficiais devam ser analisadas com cautela em contextos de conflito, a posição da Ucrânia é fortalecida pela ausência de confirmações técnicas externas que contradigam essa negação.
Comparação com Dados Públicos
Outro aspecto crítico da checagem é a comparação entre os números apresentados no texto viral e as estimativas ou declarações públicas conhecidas. Em uma entrevista à televisão francesa em fevereiro de 2026, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky indicou que cerca de 55 mil militares ucranianos teriam falecido em combate, além de um número não especificado de desaparecidos. Considerando que números oficiais podem ser subestimados em situações de guerra, a discrepância entre dezenas de milhares e mais de 1,7 milhão é substancial, levantando questões sobre a plausibilidade da alegação viral.
Análise Jornalística da Situação
Do ponto de vista jornalístico, três fatores principais enfraquecem a credibilidade da mensagem que circulou: a ausência de uma origem verificável, a falta de evidências técnicas e a incompatibilidade numérica com fontes confiáveis. Essas características não significam que seja possível determinar com precisão as perdas reais de um conflito em andamento, mas indicam que a alegação específica em questão não cumpre critérios mínimos de verificação.
O Papel da Desinformação em Conflitos Armados
As guerras modernas são frequentemente acompanhadas por intensas disputas informativas. Alegações de vazamentos, números inflacionados ou subestimados e narrativas apresentadas como “revelações secretas” são comuns nesse cenário. Conteúdos desse tipo têm potencial de se espalhar rapidamente, uma vez que apelam à curiosidade e ao impacto emocional do público. Portanto, tanto as organizações jornalísticas quanto os leitores enfrentam o desafio de avaliar não apenas o conteúdo, mas também sua origem, metodologia e confirmação independente.
Diante das informações atualmente disponíveis, não há evidências verificáveis de que hackers tenham acessado uma base de dados do Estado-Maior ucraniano contendo informações pessoais de mais de 1,7 milhão de militares mortos ou desaparecidos. As checagens realizadas por veículos internacionais e a ausência de confirmações técnicas independentes levam à conclusão de que essa narrativa carece de comprovação. A questão das perdas humanas na guerra continua a ser um tema sensível e cercado de incertezas, mas, sob uma perspectiva jornalística, a alegação analisada deve ser vista com cautela, não podendo ser considerada como um fato com os dados disponíveis até o momento.

