Tecnologia Inovadora Fortalece a Identificação de Vítimas
Uma nova tecnologia baseada em inteligência artificial, desenvolvida com a colaboração de pesquisadores da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), começou a ser implementada pela Secretaria de Saúde do Recife. A ferramenta, chamada ClarIA, foi anunciada recentemente e é parte das ações do mês dedicado ao empoderamento feminino, tendo como objetivo aprimorar a identificação e o atendimento a mulheres que enfrentam situações de violência na rede municipal de saúde.
A ClarIA foi criada pelo laboratório FrameNet Brasil da UFJF, em uma parceria com a Prefeitura do Recife e a organização internacional de saúde pública Vital Strategies. O sistema analisa dados de prontuários eletrônicos, gerando alertas para profissionais de saúde quando identifica indícios de que uma paciente pode estar em uma situação de violência.
Ao longo do projeto, a tecnologia examinou aproximadamente 162 mil prontuários médicos de cerca de 16 mil mulheres atendidas na rede de saúde do Recife ao longo de uma década. A análise combinou informações do Sistema de Informações de Agravos de Notificação (Sinan) e dados dos prontuários eletrônicos, englobando textos livres inseridos pelos profissionais de saúde.
De acordo com Tiago Torrent, coordenador do projeto e pesquisador do FrameNet Brasil, um dos principais diferenciais da ClarIA é sua habilidade de interpretar textos livres, que frequentemente contêm abreviações, erros ortográficos e estilos diversos de redação. “Os textos de prontuário são muito diferentes dos dados usados normalmente para treinar sistemas de inteligência artificial. Desenvolvemos um modelo capaz de interpretar esse tipo de texto e identificar padrões de relato de violência”, explica Torrent.
Identificação Antecipada de Casos de Violência
Através da análise realizada, a ferramenta consegue identificar indícios de violência até 90 dias antes da notificação formal. Isso aumenta as oportunidades para que os profissionais de saúde ajam de maneira proativa na proteção dessas mulheres. “Conseguimos detectar sinais que precedem a notificação formal de violência, o que pode ser crucial para a intervenção adequada”, destaca o pesquisador.
A escolha do Recife como local para implementar essa inovação se deve à sua infraestrutura digital avançada na rede de saúde. A cidade tem um histórico mais sólido no uso de prontuários eletrônicos na Atenção Básica, o que possibilitou uma análise abrangente de dados. “A consistência dos registros permite a identificação de padrões ao longo do tempo”, aponta Torrent.
Transformação de Relatos em Dados Estruturados
A ClarIA utiliza a análise semântica para converter relatos feitos nos prontuários em informações que podem ser processadas por sistemas de computador. Esse método revela padrões de relato de violência, oferecendo uma visão mais clara sobre como as vítimas interagem com os serviços de saúde.
O modelo desenvolvido é resultado de anos de pesquisa em linguística computacional. “A proposta do FrameNet Brasil é entender como as pessoas interpretam a escrita. Essa abordagem permite a interpretação de textos reais, frequentemente imprecisos e repletos de variações linguísticas”, explica Torrent.
A análise realizada também destaca comportamentos relevantes das vítimas antes que a violência seja formalmente notificada. Em muitos casos, as mulheres relatam conflitos e episódios de agressão durante consultas, semanas ou até meses antes de um registro oficial. “Nós esperávamos encontrar queixas mais genéricas, como dores. No entanto, o que observamos foi que muitas mulheres mencionam discussões e situações de violência muito antes de uma notificação formal”, salienta o professor.
Capacitação e Expansão da Iniciativa
No início da implementação, três Unidades de Saúde da Família do Distrito Sanitário I de Recife participaram do projeto-piloto: Santo Amaro III, Santa Terezinha e Pilar, onde 31 profissionais receberam capacitação para utilizar a ferramenta. A intenção é incluir mais 21 unidades na próxima fase, totalizando 497 profissionais capacitados, incluindo médicos, enfermeiros e agentes comunitários de saúde.
Para Torrent, essa iniciativa mostra como a pesquisa acadêmica pode impactar políticas públicas e enfrentar problemas sociais complexos. “Transformar informações contidas nos prontuários em dados analisáveis abre espaço para identificar padrões que podem melhorar as ações de saúde pública”, conclui.
Em breve, a Diretoria de Imagem da UFJF lançará um novo episódio do programa IdPesquisa, onde o professor Torrent apresentará o trabalho do FrameNet Brasil e explicará como a ClarIA está ajudando na identificação de possíveis casos de violência contra mulheres na cidade de Recife.

