Uma Solução Inovadora para Incêndios Florestais
As altas temperaturas e os longos períodos de seca têm contribuído para o aumento acentuado dos incêndios florestais. Na América do Sul, as áreas devastadas por essas queimadas cresceram 30 vezes entre 2024 e 2025, conforme dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Nesse contexto alarmante, surgem também inovações capazes de mitigar os efeitos devastadores das chamas. Em Pernambuco, um pesquisador decidiu utilizar todo o seu conhecimento acumulado em anos de laboratório para criar uma solução que enfrenta diretamente esse desafio ambiental.
José Yago Rodrigues, formado em química industrial, sempre teve a ambição de seguir uma carreira acadêmica, almejando ser pesquisador e professor. Contudo, sua trajetória tomou um novo rumo ao se envolver em projetos de recuperação ambiental, o que o levou a fundar uma startup focada em inovações tecnológicas sustentáveis.
“Meu sonho era ser pesquisador. Entrando no mestrado e no doutorado, temos essa expectativa”, compartilha José Yago.
A Transição da Pesquisa para a Prática
A mudança de foco ocorreu em 2019, após um desastre ambiental significativo, quando um derramamento de óleo impactou o litoral nordestino, afetando mais de 130 cidades e aproximadamente 3.600 quilômetros de praias. Naquele momento, José integrou uma equipe que desenvolveu uma manta de gel, com a capacidade de absorver o óleo da água, feita a partir do alginato de sódio — uma substância extraída de algas marinhas e frequentemente utilizada na indústria alimentícia.
Esse material funcionou como uma esponja seletiva, capturando o óleo enquanto permitia que a água fluísse, e a experiência levou José a perceber que essa tecnologia poderia ser adaptada para outras iniciativas ambientais.
Assim, nasceu a ideia de um novo produto: um biogel destinado a ajudar no combate a incêndios florestais e agrícolas.
Como o Gel Funciona
Esse biogel, ao ser misturado com água, cria uma camada protetora sobre a vegetação, formando uma barreira que impede a propagação do fogo e melhora a eficiência das ações de combate às chamas. José Yago explica: “Desenvolvemos um gel que apaga incêndios mais rapidamente, utilizando menos água. Ele é biodegradável, não tóxico e seguro para o meio ambiente.”
Além disso, a aplicação do gel pode ser feita com equipamentos convencionais utilizados por bombeiros, como bombas costais, caminhões-pipa e drones, o que amplia consideravelmente suas possibilidades de uso nas áreas afetadas.
O biogel recebeu patente em 2021 e, com isso, José decidiu estabelecer sua empresa para levar essa tecnologia ao mercado. A startup conseguiu captar recursos por meio de editais de incentivo do governo de Pernambuco e programas federais que apoiam a inovação.
Desafios do Empreendedorismo
Entretanto, a transição de um ambiente de pesquisa para o mundo empresarial trouxe uma série de desafios. “Empreender é um desafio diário. A gestão da empresa e as questões financeiras são obstáculos significativos para quem vem da academia”, observa o fundador.
Aplicações Práticas e Resultados
Atualmente, o gel já está sendo utilizado por agricultores, como Vicente Henrique de Albuquerque, que cultiva cana-de-açúcar em Pernambuco. Ele testou a eficácia do produto em suas plantações e afirmou: “Fizemos o teste e o produto atendeu plenamente às expectativas, reduzindo o risco de incêndios na lavoura.”
Além de conter as chamas, o biogel também possibilita uma economia considerável de água. Em um incêndio de grandes proporções, que afetaria uma área equivalente a um campo de futebol, o método tradicional exigiria em torno de 50 mil litros de água. Com o uso do biogel, esse volume pode ser reduzido para cerca de 7 mil litros, representando uma economia de até 85%.
Perspectivas Futuras e Expansão
No presente, a fábrica da startup tem a capacidade de produzir até 20 mil litros de gel mensalmente. O produto é comercializado em embalagens de 20 litros, com preço aproximado de R$ 2 mil. Em 2025, a empresa registrou um faturamento de R$ 150 mil, com projeções otimistas que visam alcançar R$ 2 milhões em 2026, à medida que obtenha todas as certificações necessárias para a comercialização do produto.
A startup também firmou uma parceria com uma organização do Reino Unido que financia inovações com impacto ambiental. Essa colaboração poderá abrir portas para a expansão internacional da tecnologia desenvolvida por Rodrigues.
A ambição de José Yago é transformar sua empresa em um polo de pesquisa aplicada, afirmando: “A ideia é transformar um artigo científico em uma nota fiscal — um produto que possa trazer benefícios reais à sociedade.”

