Crescimento Alarmante de Acidentes
Nos últimos cinco anos, Pernambuco enfrentou um aumento de 37,5% no número de vítimas de acidentes com motos. Em 2025, cerca de 37.736 pessoas se envolveram em ocorrências desse tipo. Esses acidentes não apenas resultam em milhares de internações, frequentemente com a necessidade de cirurgias e longos períodos de reabilitação, mas também pressionam fortemente o sistema de saúde local e geram um número alarmante de óbitos. Somente no ano passado, mais de duas pessoas perderam a vida diariamente devido a tais incidentes. Os dados indicam que estamos diante de uma verdadeira epidemia sobre duas rodas, que se espalha como um vírus.
Um exemplo marcante é o caso de Eduardo Francisco, 26 anos, um preparador de máquinas que frequentemente trabalha como entregador via aplicativo. Ao voltar para casa, em Dois Irmãos, ele foi atingido por um carro que entrou na via sem atenção. Eduardo tentou desviar, mas acabou colidindo, resultando em uma grave lesão no tornozelo que o afastou do trabalho por um longo período. Six meses de recuperação e oito cirurgias depois, ele reflete: “A pior coisa do mundo seria perder minhas pernas.” O impacto emocional e financeiro foi devastador, especialmente em um momento em que dependia do auxílio do INSS para sobreviver. “As contas ficaram bagunçadas, e o atraso foi complicado.”
Uma Epidemia com Custos Altos
O drama da saúde pública gerado por essa epidemia não se limita ao número de internações. A crise ocasionada pelos acidentes de moto representa também um grande desafio econômico. As famílias enfrentam a perda de renda, enquanto o poder público é pressionado a fornecer benefícios permanentes para aqueles que não conseguem mais trabalhar devido às sequelas. Não é um problema restrito a Pernambuco; é um fenômeno nacional. O pesquisador Carlos Henrique Ribeiro de Carvalho, do Ipea, destaca que cerca de 60% das internações em decorrência de acidentes de trânsito são relacionadas a motocicletas. “Isso se tornou um grande flagelo para a saúde pública no Brasil e impacta significativamente os custos do SUS”, pontua.
O crescimento da frota de motocicletas no Brasil, impulsionado por fatores como a inflação dos preços dos carros e a crise no transporte público, levou muitos a optarem por motos como meio de transporte. “O número de mortes cresceu junto com o aumento da frota. Em Pernambuco, a frota de motos ultrapassou a de carros pela primeira vez em 2025, com 1,6 milhão de motos e 1,5 milhão de carros”, destaca Carvalho.
O Papel dos Aplicativos na Aumento dos Acidentes
A popularização dos aplicativos de entrega exacerbou a situação. Rômulo Belo, 53 anos, um empreendedor da área de delivery, é um exemplo. Após um acidente em 2003, ele percebeu que a segurança no trânsito se deteriorou muito desde a chegada dos aplicativos. “Hoje, os motociclistas estão sob uma pressão imensa para entregas rápidas, o que aumenta a imprudência no trânsito”, observa. Essa mudança de comportamento gera um risco elevado para todos os envolvidos.
Além da dor física e do trauma emocional, muitos acidentados enfrentam batalhas paralelas com o INSS. Bruno Paixão, 40 anos, é um deles. Ele sofreu um grave acidente ao tentar desviar de um caminhão parado, resultando em múltiplas fraturas. A espera pela perícia do INSS se tornou um desafio a parte, atrasando a recuperação financeira e gerando instabilidade ainda maior.
Quem São as Vítimas?
Dados do Sinatt e da SES-PE revelam que a maioria das vítimas é do sexo masculino e está na faixa etária de 20 a 39 anos, representando 64,1% do total de acidentados. A falta de uso de capacete, o consumo de álcool e a condução sem habilitação são os principais fatores de risco. Um dado alarmante: 52,8% dos motociclistas envolvidos em acidentes no ano passado estavam sem a carteira de habilitação.
A informalidade também é uma questão crítica. Muitas vítimas pertencem à população de baixa renda, sendo suas motos a única forma de transporte acessível. Essa realidade aumenta a vulnerabilidade em casos de acidentes, impactando diretamente suas famílias. “A perda de uma fonte de renda pode resultar em uma espiral de pobreza”, alerta Carlos Henrique.
Impactos no Transporte Público e Propostas de Soluções
A proliferação de motocicletas não só afeta a saúde pública, mas também o transporte coletivo. Com o aumento do número de motos, a demanda por ônibus tem diminuído, resultando em um efeito negativo sobre a mobilidade urbana. As medidas para contornar essa situação devem ser integradas, envolvendo políticas de saúde, transporte e trabalho.
Entre as propostas discutidas está a ampliação da fiscalização e campanhas educativas permanentes. A SES-PE já criou iniciativas como o Cepam e a Operação Lei Seca, visando reduzir a morbimortalidade. O coordenador técnico do Urbana-PE, Bernardo Braga, defende que é vital priorizar o transporte coletivo para tornar essa opção mais atrativa e segura. Ele ressalta que a regulamentação do transporte por motocicletas deve ser tratada com rigor, buscando complementar o sistema público, sem substituí-lo.
Conclusão
Enfrentar a epidemia de acidentes de motocicleta em Pernambuco é um desafio complexo que requer uma abordagem holística. É preciso atacar as raízes do problema, como a precarização do transporte público e a informalidade do trabalho, ao invés de apenas mitigar suas consequências. Sem mudanças estruturais, o estado continuará lidando com os feridos, enquanto novos pacientes surgem a cada dia.
