A Crise da Cesta Básica no Nordeste
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrenta um novo desafio econômico em sua principal base eleitoral, o Nordeste. De acordo com um levantamento oficial, os preços de alimentos, aluguel, gasolina e gás de cozinha registraram aumentos mais significativos nas principais cidades da região em comparação com o restante do Brasil. Essa alta acentuada pode comprometer a popularidade de Lula, que já enfrenta uma queda nas pesquisas de aprovação.
Para lidar com essa situação, o presidente promete apresentar um novo programa de renegociação de dívidas nesta segunda-feira (4). O petista, que se prepara para disputar a reeleição em outubro, tem perdido apoio no Nordeste, uma área fundamental para o seu partido, conforme revelam os últimos dados.
Leia também: Inflação de Fevereiro: IPCA sobe 0,70% liderado pela Educação e melhora em 12 meses
Leia também: Inflação em Alta: IPCA Registra Aumento de 0,33% em Janeiro
Entre as dez capitais brasileiras com as maiores altas na cesta básica, seis estão localizadas no Nordeste. Embora a média da cesta básica seja mais cara em São Paulo, com um valor de R$ 883,94, as capitais nordestinas estão enfrentando aumentos ainda mais intensos neste ano. No Recife, por exemplo, o custo da cesta básica saltou para R$ 654,62, representando um aumento de 9,82% entre janeiro e março. Esse percentual é quase o dobro da previsão de inflação anual de 4,86%, conforme apontado pelo boletim Focus do Banco Central.
Altas Preocupantes
Em comparação, no estado de São Paulo, o reajuste médio da cesta básica ficou em 4,49%, segundo dados do Dieese. O feijão-carioca destaca-se como um dos principais responsáveis por essa elevação nos preços no primeiro trimestre do ano. Em outras cidades nordestinas, os números são preocupantes: Salvador teve um aumento acumulado de 27% no ano; Teresina 24,7%; Recife 24%; e Belém com impressionantes 50%. O cenário é resultado de uma série de fatores interligados.
Leia também: Aluguel Aumenta 9,44% em 2025, Superando Inflação de 4,26%
Leia também: Presidente Lula Anuncia Reajuste do Piso do Magistério Abaixo da Inflação, Diz Ministro da Educação
A baixa nos preços do feijão no ano passado desincentivou os produtores, que acabaram reduzindo a área plantada para a safra seguinte, resultando em uma oferta menor. Adicionalmente, as condições climáticas desfavoráveis impactaram a colheita. A falta de alternativas importadas, diferentemente do que acontece com o feijão-preto, fez com que o preço do feijão-carioca, muito apreciado no Nordeste, disparasse.
Outros fatores que contribuíram para o aumento da cesta básica incluem a alta nos preços das carnes, da farinha de mandioca e dos laticínios, que estão enfrentando dificuldades, especialmente o leite, que está na entressafra. No Recife, por exemplo, a carne já registra um aumento de 5,39% neste ano, enquanto a farinha de mandioca teve um reajuste de 4,38% na capital pernambucana e de 13% em Fortaleza.
Impacto dos Combustíveis e Logística Regional
Patrícia Costa, economista do Dieese, comenta: “Apesar do aumento concentrado em poucos itens, esses produtos são extremamente relevantes para a população”. Ela acrescenta que, até março, os preços dos alimentos não refletiram a alta dos combustíveis, possivelmente devido às políticas de subvenção implementadas. No entanto, a expectativa é que essa relação se altere em abril, visto que o aumento do diesel encarece o frete, o que pode afetar os preços gerais.
Além disso, desde o final de fevereiro, com o início do conflito no Irã, o preço da gasolina ao consumidor no Nordeste subiu de R$ 6,28 para R$ 6,93 por litro, uma elevação de 10,35%, conforme dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP). Essa variação é a mais significativa entre todas as regiões do país, sendo acompanhada por um aumento de 26,25% no diesel. Isadora Osterno, pesquisadora do Centro de Estudos para o Desenvolvimento do Nordeste, explica que a estrutura produtiva e a logística da região tornam o Nordeste mais vulnerável a choques econômicos desse tipo. “As cadeias de produção são mais caras aqui. A gasolina, por exemplo, chega com um custo mais elevado, e a logística tem um impacto relevante sobre os preços na região”, conclui.
