segunda-feira 13 de abril

Como a Guerra no Irã Afeta os Fertilizantes no Brasil

Na última terça-feira (7/4), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, revisitou sua retórica sobre o Irã, que em fevereiro havia sido declarado como alvo de uma guerra. Em um surpreendente recuo, ele anunciou um cessar-fogo de duas semanas, condicionado à “passagem segura” de navios no estreito de Ormuz, uma das rotas comerciais mais importantes do mundo.

Embora essa pausa traga um alívio temporário, a incerteza quanto ao futuro da região persiste. O foco, neste caso, está nos fertilizantes, em especial a ureia, um composto nitrogenado vital para a agricultura em larga escala. Para o Brasil, que depende fortemente de insumos agrícolas importados, a situação é preocupante.

Segundo Bernardo Silva, diretor-executivo do Sinprifert (Sindicato Nacional da Indústria de Matérias-primas para Fertilizantes), “o problema central é que temos um setor agrícola que representa cerca de 30% do PIB, mas depende de mais de 90% de fertilizantes importados”. Essa dependência torna o agronegócio brasileiro vulnerável a crises geopolíticas.

No mesmo dia do anúncio de Trump, a Associação dos Fornecedores de Cana-de-Açúcar de Pernambuco (AFCP) e o Sindicato dos Cultivadores de Cana do Estado de Pernambuco (Sindicape) se manifestaram em Recife, reivindicando assistência do governo para garantir o fornecimento de fertilizantes.

Impactos na Economia Alimentar e Inflação

A situação não se limita apenas ao setor agrícola. Milho e soja são ingredientes fundamentais da ração animal, e um aumento nos custos dos fertilizantes pode gerar um efeito dominó, elevando os preços de produtos como frango, ovos e carne bovina nos supermercados brasileiros no segundo semestre deste ano.

O boletim Focus do Banco Central, que compila expectativas para indicadores econômicos, sinaliza um pessimismo crescente em relação à inflação. Segundo o Rabobank, a previsão é que os preços dos alimentos subam 4,6% até o final do ano, um aumento considerável em comparação aos 1,4% registrados em 2025.

Como um dos maiores exportadores de alimentos do mundo, o Brasil também é o maior importador global de fertilizantes. Além de depender desses insumos, o país importa cerca de 75% dos defensivos agrícolas, que protegem as plantações contra pragas e doenças. Historicamente, a Rússia é a principal fornecedora brasileira de fertilizantes essenciais, mas a relação com o Irã também se fortaleceu nos últimos anos.

A Relação Estratégica com o Irã

Embora o Irã não seja o maior fornecedor de fertilizantes para o Brasil, a interdependência comercial aumentou. No último ano, o Brasil exportou quase US$ 3 bilhões em produtos agrícolas para o Irã, principalmente milho e soja. Esse intercâmbio é facilitado pelo sistema de troca chamado “barter”, em que os produtores trocam suas colheitas futuras por insumos.

Essa dinâmica logística é crucial: navios partem do Brasil carregados de milho e retornam com adubo. Contudo, a instabilidade no estreito de Ormuz e os desafios enfrentados pelas plantas petroquímicas iranianas colocam essa relação em risco.

Recentemente, um ataque israelense em Mahshahr, um centro da indústria petroquímica no Irã, resultou em várias mortes e feridos, evidenciando a vulnerabilidade da infraestrutura crítica do país.

Consequências do Atraso no Fornecimento de Ureia

Se o fornecimento de ureia for interrompido, a situação para os agricultores se tornará insustentável. Bruno Fonseca, analista sênior do Rabobank, alerta que muitos já enfrentam dificuldades financeiras e que os preços elevados dos fertilizantes aumentam ainda mais essa pressão.

A escalada do conflito na Ucrânia já havia elevado os preços dos fertilizantes, mas agora a situação se complica. Os preços da ureia, que antes estavam em torno de US$ 350, dispararam para cerca de US$ 550. Paralelamente, os preços do milho e da soja também estão em queda, afetando as margens de lucro dos produtores.

Buscando Soluções para a Crise

Para mitigar os efeitos da crise no Golfo Pérsico, o Ministério da Agricultura brasileiro está negociando acordos com a Turquia, permitindo que cargas brasileiras transitem pelo território turco. Além disso, a Petrobras reativou plantas de fertilizantes em Sergipe, Bahia e Paraná, com a expectativa de que a produção nacional atenda até 35% da demanda brasileira nos próximos anos.

O programa Profert, que visa modernizar a infraestrutura de produção de fertilizantes no Brasil, aguarda aprovação no Legislativo, e tem como objetivo proporcionar um alívio a longo prazo para a dependência de importações. “Precisamos de uma vontade política para transformar essas propostas em ação”, conclui Silva, ressaltando a urgência da situação.

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