sexta-feira 6 de março

Uma Viagem pela Luz e pela Introspecção

Após 48 anos dedicados à diplomacia, Marcos Duprat se despede de sua carreira com uma exposição que promete encantar o público. O artista, que ocupou postos em diversas cidades pelo mundo, como Washington, Lima e Tóquio, agora foca em seu trabalho artístico, apresentando a mostra “Matéria e luz” até o dia 3 de maio na Casa de Cultura Laura Alvim, no Rio de Janeiro. Com curadoria de Luis Sandes, a exposição reúne 32 peças que capturam a essência da luz local, revelando a riqueza de sua experiência internacional.

De sua aposentadoria do Itamaraty, Duprat se dedica inteiramente à pintura em seu ateliê, localizado em Ipanema. A varanda ampla e envidraçada do espaço permite ao artista observar a movimentação da Avenida Vieira Souto e da Praia de Ipanema, enquanto trabalha em suas telas. Nesta nova fase, Duprat explora cores e luzes, refletindo sobre a ondulação da superfície líquida. Obras como “Horizontes” (2025) e o díptico “Águas” (2023) exemplificam essa busca, utilizando a técnica da velatura, que consiste na aplicação de camadas finas de tinta.

“Chego a passar dois meses em uma única tela, esperando que a pintura seque para adicionar novas camadas. Essa demora não se alinha com a velocidade que o mercado exige, e, honestamente, não é isso que me move”, declara Duprat. Ele ressalta que, em tempos tão imediatistas, a pintura se mostra como uma expressão completamente atemporal. O artista também reflete sobre a evolução do mercado de arte no Brasil, que, segundo ele, não era tão valorizado no passado. “Naquela época, mais do que vender, o importante era o ambiente criativo. Havia amizade e um calor humano que faziam toda a diferença”, completa.

Raízes Artísticas e Encontros Marcantes

Um marco em sua formação artística foi o Atelier Livre do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio, onde Duprat compartilhou experiências com mestres renomados no final dos anos 1960. Entre eles, estavam Fayga Ostrower, Aluísio Carvão e Anna Bella Geiger. Após se formar pelo Instituto Rio Branco, o artista continuou seus estudos em Washington, onde obteve um mestrado na American University. A exposição na Casa de Cultura também inclui uma obra significativa de sua trajetória, “Figura em interior” (1977), que fez parte de sua primeira mostra na capital americana.

“Os professores que tive eram influenciados pela escola abstrato-expressionista americana e sempre me incentivaram a seguir minha própria visão, mesmo quando me sentia deslocado ao pintar em um estilo figurativo”, lembra Duprat. Para ele, entender as linhas de tensão do corpo humano é crucial, e a habilidade de desenhar uma figura em pé, interagindo com o espaço, é uma das mais desafiadoras.

Uma Homenagem a Antonio Cicero

Entre as conexões que Duprat fez ao longo de sua vida, destaca-se a amizade com Antonio Cicero, poeta e compositor que ocupou a cadeira número 27 da Academia Brasileira de Letras (ABL). O texto de apresentação da mostra é uma homenagem ao amigo, que faleceu em 2024 após optar por um procedimento de morte assistida na Suíça, durante sua luta contra o Alzheimer. “Conheci o Cicero em Washington, e sempre admirei sua intelectualidade e paixão pela arte”, comenta Duprat, lembrando de momentos juntos, inclusive da jovem Marina Lima, irmã de Cicero, que também estava em meio a seus estudos musicais.

“Falei com Marcelo, viúvo do Cicero, sobre a ideia de incluir seu texto na exposição. Isso não apenas apresenta uma nova oportunidade ao público brasileiro, mas também é uma forma de manter sua memória viva entre nós”, explica Duprat, que se recorda do poeta em seus últimos dias, revelando a clareza de suas ideias mesmo diante da doença. “Ele sempre abordou a questão com muita serenidade”, diz o artista.

Reflexões sobre o ‘Mundo Interior’

A partir do texto de Cicero, Duprat se vê refletido na ideia de um “mundo interior” que suas obras representam, contrapondo a intimidade das figuras e as luzes naturais que emitem. “Para criar, é preciso introspecção, silêncio e disciplina”, afirma. Ele enfatiza que sua arte, por mais simples que possa parecer, não busca o imediatismo ou a tensão social. “Não se trata de uma pintura que chama atenção à primeira vista, mas sim uma experiência que se conecta de forma única com cada espectador”, conclui.

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