Uma Visão Histórica da Política Externa dos EUA
A atual situação que observamos nas relações internacionais dos Estados Unidos não é um fenômeno isolado, mas sim um reflexo profundo da história da formação da sociedade estadunidense. Essa trajetória, repleta de eventos marcantes, é permeada pela violência da colonização, que moldou suas interações com o mundo desde os primeiros tempos de exploração inglesa e espanhola. Essa herança histórica, marcada por um sentimento de beligerância constante, parece se intensificar, desprendendo-se de limites éticos e de considerações semânticas que antes eram parte do discurso liberal “politicamente correto”. O conceito de ‘big stick’ permanece presente, mudando apenas a retórica utilizada.
A ideia do far west não remete apenas a um capítulo da história dos pioneiros, mas se configura como uma ideologia de expansão e domínio que se legitima pela força. Em outras palavras, é a força que se transforma em direito, muitas vezes disfarçada de naturalização. O pensador Frantz Fanon já abordou a alienação do colonizado, destacando como muitos interesses do colonizador passam a ser absorvidos como próprios pelos colonizados. Recentemente, não é raro ver políticos brasileiros de extrema-direita atuando em parceria com a Casa Branca, em prol de interesses que não são necessariamente nacionais. O mesmo se aplica a plantadores de soja e exportadores de carne que, em negociações em Washington, buscam promover seus próprios interesses, alinhando-se com políticas como o tarifaço proposto por Trump.
A Violência como Traço Formador da Alma Americana
A história da violência é um eixo central para a compreensão da identidade dos Estados Unidos. Desde a ocupação de vastos territórios, passando pela conquista do Oeste, até a destruição intencional de civilizações nativas e a escravidão, os traços de opressão e racismo se perpetuam. O macarthismo, no século XX, e a violência atual contra imigrantes em um país fundado por imigrantes, aliado à persistência da Ku Klux Klan, revelam a continuidade desse ciclo de violência. As guerras travadas pelos EUA, longe de serem defesas de seu território — sempre seguro —, foram, na maioria das vezes, guerras de agressão, com destaque para a guerra contra o México em 1848, resultando na usurpação de 55% de seu território original.
É preciso compreender que o fenômeno do trumpismo, apesar de sua natureza alarmante, não pode ser tratado como um evento isolado. Como bem destacou o historiador Ernest Renan, “a nação é uma alma, um princípio espiritual”. Assim, a alma americana é inseparável de sua história imperialista, especialmente em um contexto de capitalismo monopolista que exige expansão constante.
A Intersecção entre Capitalismo e Imperialismo
O capitalismo, em sua essência, é um Leviatã que não se contenta em parar de crescer. Essa necessidade de expansão é o que impulsiona as dinâmicas imperialistas. Lênin, em 1916, abordou esse fenômeno como a fase superior do capitalismo, marcada pela dominação dos monopólios e pelo capital financeiro. Essa fusão entre capital bancário e industrial não apenas molda a política externa, mas também constituiu uma estrutura histórica essencial do capitalismo. A necessidade de conquistar mercados, territórios e recursos é o motor que impulsiona essa lógica.
Essa trajetória imperialista dos EUA se intensificou com o desenrolar do século XX, especialmente após a Segunda Guerra Mundial. Na Conferência de Bretton Woods em 1944, os Estados Unidos se estabeleceram como potenciais líderes mundiais, redefinindo a ordem monetária global com o dólar se tornando a moeda central do comércio internacional. As instituições criadas para sustentar essa hegemonia — como o FMI e o Banco Mundial — rapidamente se tornaram instrumentos que perpetuam a dependência das nações em desenvolvimento.
Desafios Contemporâneos e a Ascensão da China
Hoje, a hegemonia dos EUA enfrenta novos desafios, especialmente com a ascensão da China como uma potência econômica significativa. Com um foco em inovação tecnológica e vastos investimentos em infraestrutura global, a China construiu uma rede de dependências comerciais que a coloca em uma posição estratégica frente aos interesses americanos. O avanço chinês, no entanto, não significa apenas um crescimento econômico; implica uma reavaliação do equilíbrio de poder em um mundo cada vez mais multipolar.
Nesse contexto, a geopolítica contemporânea apresenta novas nuances. Enquanto os EUA buscam manter sua influência, a China, com sua Rota da Seda, se posiciona como um ator global relevante, intensificando a concorrência comercial e tecnológica. As tensões entre essas duas superpotências refletem uma luta não apenas por mercados, mas pela definição de um novo ordenamento mundial.
O Futuro das Relações Internacionais
À medida que a história avança, a evidência é clara: o imperialismo e a política externa dos EUA são produtos de uma longa história de interações complexas e muitas vezes violentas. O futuro das relações internacionais dependerá da capacidade das nações de reconhecer e responder a esses padrões históricos e suas implicações. O dilema contemporâneo não é apenas sobre política externa, mas sobre a necessidade de reavaliar a natureza do poder em um mundo em transformação. A escolha entre a guerra e a diplomacia se revela mais pertinente do que nunca, à medida que a história continua a nos mostrar que os ciclos de violência e opressão podem sempre ser reescritos.
