A Importância da Saúde Mental no Esporte
No último dia 14 de fevereiro, o início da temporada do futebol brasileiro trouxe à tona a fragilidade emocional de atletas. O Vasco, que atravessava um mau momento, foi derrotado pelo Volta Redonda por 1 a 0, em uma partida das quartas de final do Campeonato Carioca. Um momento emblemático se deu quando a placa de substituição indicou a entrada do jogador Rojas no lugar de Philippe Coutinho. O famoso camisa 10, adorado pela torcida, enfrentou uma vaia contundente em São Januário, um fato inédito em sua carreira. Esse episódio, que se revela um ponto de virada, culminou na decisão de Coutinho de deixar o clube apenas quatro dias depois, alegando estar “cansado mentalmente”.
“Ao ir para o vestiário, percebi que meu ciclo no clube havia se encerrado e não voltei para priorizar minha saúde mental”, declarou o atleta em suas redes sociais. A diretoria do Vasco planejava renovar seu contrato, mas esse desdobramento acabou resultando no fim da trajetória de Coutinho no clube, antes mesmo de ele compreender os desafios que enfrentava, tanto pessoais quanto coletivos. Ele se soma a uma larga lista de grandes nomes do esporte que tomaram decisões de antecipar suas retiradas para proteger sua saúde psicológica.
O Crescimento das Pausas para Cuidar da Saúde Mental
Nos últimos anos, muitos atletas e treinadores, de diferentes modalidades, se afastaram do esporte — seja de forma repentina ou planejada — para focar no bem-estar mental. Exemplos incluem a tenista Naomi Osaka, a ginasta Simone Biles, o técnico Tite, além dos surfistas Gabriel Medina e Tatiana Weston-Webb. Todos esses se depararam com a necessidade de priorizar a saúde emocional em detrimento de oportunidades tentadoras ou de competições importantes.
Esse fenômeno reflete uma realidade mais ampla do Brasil. Em 2023, os pedidos de afastamento do trabalho por questões de saúde mental superaram 546 mil, representando um aumento de 15% em relação ao ano anterior, conforme dados do Ministério da Previdência Social. A pressão intensa que os atletas enfrentam no alto rendimento torna-se um terreno fértil para o surgimento de problemas psicológicos. Segundo Raphael Zaremba, professor de Psicologia do Esporte da PUC-Rio, essa situação é agravada pelo crescimento das redes sociais.
“O esporte tem um componente adicional que vem da interação nas redes sociais, onde as pessoas expressam suas opiniões e críticas, aumentando a pressão sobre os atletas”, explica Zaremba. “Essa pressão, que sempre existiu, tornou-se ainda mais intensa hoje em dia.”
Reflexões da Atleta Tatiana Weston-Webb
Após conquistar uma medalha de prata inédita para o surfe feminino brasileiro nos Jogos de Paris em 2024, Tatiana Weston-Webb percebeu, em acompanhamento psicológico, sinais de desgaste emocional. Em março do ano passado, tomou a decisão consciente de pausar sua carreira. “No alto rendimento, aprendemos a ser fortes o tempo todo, mas força também é reconhecer a hora de parar”, compartilha Tatiana. “A decisão de fazer uma pausa foi resultado de um processo junto com minha equipe, especialmente com minha psicóloga, que me ajudou a enxergar meus limites.”
Durante seu período de pausa, Tatiana se tornou mãe de Bia Rose, que nasceu no início de fevereiro. “O surfe sempre foi minha paixão. Essa pausa não foi um retrocesso, mas um investimento na minha longevidade no esporte”, afirma. “Me tornar mãe trouxe uma nova perspectiva sobre equilíbrio e prioridades. Hoje, compreendo que cuidar da mente é tão essencial quanto treinar o físico.”
A Necessidade de Diálogo e Prevenção
Naturalizar o debate sobre saúde mental entre atletas é uma questão crucial. Zaremba destaca como o caso da ginasta Simone Biles, que se retirou de competições nos Jogos de Tóquio em 2021, foi um divisor de águas, promovendo uma discussão mais ampla sobre o tema. Biles superou suas dificuldades e conquistou quatro medalhas em Paris três anos depois. Contudo, Zaremba alerta que o cuidado deve começar desde a formação dos atletas.
“Se o atleta não for preparado desde cedo para lidar com as pressões, como a fama, a mídia e a pressão das redes sociais, ele pode sucumbir em momentos críticos”, analisa Zaremba. “O acompanhamento da saúde mental deve ser uma preocupação constante, não apenas para os atletas em ascensão, mas também para aqueles já consagrados.”
