segunda-feira 12 de janeiro

Desafios na Saúde das Comunidades Tradicionais

A incidência do tabagismo nas comunidades tradicionais da Amazônia Legal apresenta índices alarmantes, superando a média entre os demais habitantes da região. De acordo com a pesquisa “Mais Dados, Mais Saúde”, realizada pelas organizações Vital Strategies e Umane, 12% das pessoas que pertencem a essas comunidades se identificam como fumantes, enquanto esse número cai para apenas 6% entre a população geral.

O estudo, que abrangeu 4.037 entrevistados em todos os estados que compõem a Amazônia Legal, foi realizado entre maio e julho deste ano. As comunidades tradicionais, que incluem grupos como indígenas, quilombolas, seringueiros e ribeirinhos, têm um histórico de dificuldades em acessar informações e serviços de saúde adequados.

Segundo dados do IBGE, a Amazônia Legal abriga aproximadamente 867.919 indígenas e 427.801 quilombolas, refletindo a diversidade dessa população. Com uma população total de cerca de 26,7 milhões de pessoas, distribuídas entre os nove estados da região, os desafios enfrentados por esses grupos são significativos.

Consumo de Álcool e Tabagismo: Problemas Persistentes

A pesquisa também revelou que 12,3% da população da Amazônia Legal consome álcool regularmente, um índice que supera a média nacional, estimada em apenas 3%, conforme levantamento do Datafolha. Tanto o tabagismo quanto o consumo excessivo de álcool têm sido problemas persistentes nas comunidades tradicionais ao longo dos anos.

Um caso notável ocorreu em 2002, quando o tema foi discutido na 1ª Conferência Internacional sobre Consumo de Álcool e Redução de Danos, em Recife. E, em 2025, o podcast “Dois Mundos”, da Folha, destacou que esses problemas continuam a afetar diversas etnias na Amazônia.

A diretora-adjunta de Doenças Crônicas da Vital Strategies, Luciana Vasconcelos, salienta que a falta de informação em saúde é um dos principais obstáculos para a redução do tabagismo entre essas populações. Muitas comunidades estão localizadas longe dos serviços de atenção primária, onde são realizadas ações de prevenção e educação.

“Historicamente, a ausência de campanhas informativas sobre os riscos à saúde está correlacionada com índices altos de tabagismo. Quando os indivíduos não têm acesso ao sistema de saúde, eles desconhecem os efeitos nocivos de certos hábitos”, observa Vasconcelos.

Acesso à Saúde e Fatores Culturais

A dificuldade de acesso aos serviços de saúde é um fator que compromete o atendimento adequado e, consequentemente, a possibilidade de redução do consumo de tabaco entre estas populações. Um maior contato com serviços de saúde poderia ajudar na conscientização sobre os riscos do tabagismo.

Os fatores culturais também desempenham um papel crucial, segundo Gabriel Cortês, especialista técnico da Vital Strategies. “O tabaco é incorporado em rituais tradicionais e religiosos e está ligado a hábitos de vida e trabalho. A imagem do seringueiro ou do pescador com cigarro é bastante comum”, explica Cortês.

Os dados também evidenciam que a prevalência do tabagismo é significativamente mais alta entre os homens, com 12,8% se declarando fumantes, em comparação a 4,6% das mulheres na região da Amazônia Legal. Essa discrepância aponta para a necessidade urgente de intervenções direcionadas para os diferentes segmentos da população.

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