terça-feira 13 de janeiro

Cenário de Medo e Insegurança em Caracas

Recentemente, uma professora venezuelana chamada Zuleika voltou a Caracas com a intenção de resolver pendências familiares e documentais. Entretanto, ela se deparou com um ambiente repleto de medo e tensão, exacerbado pelos bombardeios e pela recente captura do presidente Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, ocorrida no último sábado (3). A preocupação com a estabilidade política e a segurança das pessoas é palpável nas ruas da capital venezuelana.

Zuleika reside no bairro 23 de Enero, uma das áreas mais emblemáticas de Caracas, conhecida por seu histórico de mobilização popular e, curiosamente, por abrigar os restos mortais do ex-presidente Hugo Chávez. O bairro foi também um dos que mais sofreram com os bombardeios. Em suas palavras, a realidade local se transformou em um cenário de medo e apatia, marcado pela presença de forças armadas e milícias.

“Jogaram uma bomba perto de onde a gente está. Estou na capital, que foi onde jogaram mais bombas. O medo se sente. […] Está tudo muito militarizado. Tem milícias com metralhadora em todo canto. Você pensa: parece que é contra a gente, não contra os gringos. As pessoas ficam com a sensação de que tudo pode ser bombardeado de novo”, desabafou.

Planos Mudam em Meio à Crise

Inicialmente, Zuleika planejava retornar ao Brasil após regularizar suas pendências. No entanto, a escalada de violência e as incertezas políticas a forçaram a reavaliar seus planos. Ela expressou seu desejo de deixar o país assim que tivesse uma nova oportunidade, acreditando que essa situação pode levar a um novo fluxo migratório.

“Vim para resolver documentação e problemas familiares. Agora, com essa situação, deixo tudo para lá. Se fosse por mim, eu iria embora hoje. Mas nem todos podem. Tem famílias que vão ficar”, afirmou.

A Luta por Condições de Vida Dignas

Zuleika também compartilhou que sua decisão de deixar a Venezuela há três anos foi impulsionada pela deterioração das condições de vida. Ela havia trabalhado muitos anos em uma escola pública até que o salário se tornou irrelevante, resultando na perda de sua aposentadoria e na impossibilidade de arcar com as necessidades básicas.

“Em 2022, eu deixei a escola pública onde trabalhava. O salário ficou praticamente eliminado. As consequências que a gente sofre no corpo da crise foram devastadoras”, comentou.

A professora sempre apoiou a Revolução Bolivariana, que começou em 1999 com a ascensão de Hugo Chávez, defendendo a soberania nacional e a justiça social. No entanto, atualmente, Zuleika não se sente representada pelo governo de Maduro, apontando que sua saída do país não foi apenas por questões econômicas, mas também pela ausência de referências políticas que a representem.

“Não sou arrependida de ter apoiado, mas ele [Maduro] não fez o que a gente esperava. As crises que teve que administrar, jogou nas costas do trabalhador. Eu sou desse setor”, explicou.

Críticas à Oposição e à Necessidade de um Processo Democrático

Apesar de criticar a administração de Maduro, Zuleika diz não se sentir representada pela oposição, liderada por María Corina Machado, que defende a privatização e a ingerência estrangeira. “Não me sinto representada. Isso não é uma alternativa para os trabalhadores”, afirmou.

Em meio ao caos, ela defende que a saída para o país deve passar por um processo democrático. “Eu pensava que devia haver um referendo, para decidir se novas eleições devem acontecer. Quem decide o presidente somos nós, não os Estados Unidos”, declarou.

A Incerteza da Vida no Brasil

Mesmo tendo encontrado mais perspectivas no Brasil, Zuleika ainda enfrenta desafios. Sua filha vive no Sul do país desde 2018, mas elas não conseguiram se reunir. Ela, que é professora e trabalha com cultura tradicional, revela que a validação do diploma é um obstáculo significativo para migrantes.

“Sou professora, trabalho com cultura tradicional, mas, como migrante, o diploma não é fácil de validar. Muita coisa trava”, concluiu.

O sentimento de incerteza e pressão por uma suposta normalidade permeia a vida de Zuleika e de muitos outros venezuelanos que enfrentam uma realidade imprevisível. “As pessoas estão pressionadas a voltar a uma ‘normalidade’, mas qual normalidade? A gente vive na incerteza”, resumiu.

Exit mobile version